sábado, 16 de abril de 2016

O jornalismo da Rede Globo já foi embalado pelo Rock setentista.

Por Luiz Domingues.

Houve época no jornalismo da TV Globo, em que trechos de obras do Rock setentista, principalmente, foram usados como vinhetas de seus programas.

Tempo bom em que se preocupava em colocar música de qualidade para ilustrar as vinhetas de abertura ou encerramento, e diferentemente dos dias atuais onde se prefere usar muzak eletrônico descartável, na maioria dos casos.

Um exemplo disso é que desde sua primeira edição em setembro de 1969, o Jornal Nacional da TV Globo, utilizou a música “The Fuzz”, de um compositor norte americano chamado Frank De Vol como sua vinheta oficial. 

De Vol não era um rocker propriamente dito, mas sua trilha orquestrada tinha um certo sabor Rock em sua composição e arranjo, seguindo a onda das trilhas de seriados policiais americanos do fim daquela década, usando temas orquestrados na tradição dos standarts jazzísticos, mas usando fartamente elementos do Rock, como novidade estilística.


Daí o uso de guitarra com muitos pedais modernos para a época, como o Fuzz, por exemplo, e coincidentemente é o nome da trilha utilizada pelo Jornal Nacional da Globo, até hoje, se bem que já foi repaginada muitas vezes com gravações mais modernas.

Uma curiosidade engraçada e revelada pelo então diretor geral da emissora, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, popular Boni, foi que a escolha dessa música de Frank De Vol foi totalmente improvisada. Descontente com as duas músicas que haviam sido encomendas especialmente para a estreia do programa, Boni mandou um funcionário da produção numa loja de discos comprar qualquer tema instrumental que o rapaz achasse, e este chegou com o compacto de “The Fuzz” de Frank De Vol em mãos...e mal sabiam que tal música escolhida a esmo ficaria no ar por quase 50 anos e certamente que De Vol e sua família (Frank De Vol faleceu em 1999), não esperaria ganhar tantos roayalties vindo de um país como o Brasil.

Eis abaixo o áudio da composição e arranjo original de Frank De Vol : 



Agora, há uma confusão muito grande sobre a trilha original desse programa jornalístico, por conta da vinheta de um comercial veiculado antes do início da transmissão, representando o seu primeiro patrocinador, que era o Banco Nacional. 

  

Nessa vinheta do patrocinador, a trilha era a canção “Summer of 68”, do Pink Floyd (do LP Ummagumma de 1969), e muita gente associava tal canção como a verdadeira trilha do Jornal Nacional, com  a confusão pelo fato do Banco em questão também se chamar “Nacional” (e era um banco particular, mais uma confusão gerada, portanto).

A vinheta do patrocinador do Jornal Nacional, usando “Summer of 68” do Pink Floyd :



Bem, esclarecimentos à parte, o importante é que toda noite, por um bom tempo, entre 1969 e 1972 mais ou menos, ouvia-se Pink Floyd na TV Globo.

Outra trilha que marcou época e perdura até os dias atuais, é a da pujante abertura do Globo Repórter. 

No seu início, em 1973, uma grande celeuma foi criada em torno de tal tema musical, que nos seus primórdios era apresentada em seu arranjo original na gravação de um enigmático grupo de Rock que ninguém conhecia, chamado : J.B. Pickers.

Em nenhum compêndio sobre Rock havia a mínima informação sobre tal conjunto musical e isso suscitou a lenda urbana de que o tema era uma obra do Captain Beefheart, e até houve uma segunda lenda, dando conta de que teria sido composta e gravada pela banda de apoio dos Secos & Molhados, que aliás, era uma tremenda banda.

O tema em si é bastante energético, transitando entre o hard-Rock e o Jazz Rock, mas com uma certa aspereza que remete ao Krautrock. Percebe-se ainda mais essa influência se levarmos em conta que no meio do tema, tem bastante espaço para experimentalismos nada pop, outra marca registrada da citada escola germânica setentista.

Contudo, a realidade era que J.B. Pickers, além de ser americano e não europeu como se suspeitou, não era uma banda de carreira, mas apenas um nome improvisado que foi dado para justificar o lançamento da música “Freedom of Expression”.

J.B. eram na verdade as iniciais de Jim Bowen, um baixista que tinha pouca projeção no metiér do Rock americano cinquentista, e que no seu curriculum havia apenas a participação numa banda de Rockabilly que chamara a atenção de Roy Orbinson, por volta de 1957, que a apadrinhou, chamada “The Orchids”.

Não fez nenhum sucesso, apesar das bênçãos do grande Roy Orbinson, e de ter se apresentado em alguns shows promovidos pelo badalado radialista Alan Freed.

Dedicando-se à produção musical na década de sessenta inteira e início dos anos setenta, Jim teve uma oportunidade quando foi convidado a compor três músicas para a trilha de um filme chamado “Vanishing Point” (que aliás eu recomendo, por ser muito bom, com ótima trilha sonora. 

Eis o Link para ouvir a trilha sonora : 



“Vanishing Point” foi um roadie movie contracultural lançado em 1971, que não teve sucesso de público, sendo restrito ao pequeno mundo de cinéfilos, curtidores de filmes de arte e hippies & freaks ligados em contracultura. Uma dessas músicas que constam no filme, é “Freedom of Expression” que acabou se tornando vinheta oficial do Globo Repórter.

Eis o tema original de “Jim Bowen Pickers” que imortalizou-se como vinheta do Globo Repórter :


Por volta de 1975, Rick Wakeman apareceu com força, emprestando seus temas Prog Rock para o Jornal da Globo, noturno, que antecedia a sessão coruja de cinema. “Ann Boleyn” do seu primeiro disco solo, “The Six Wives of Henry VIII” e trechos do segundo disco, “Journey to the Center of the Earth, são exemplos.

E a seguir, “Karn Evil 9”, Third Impression”, do Emerson; Lake and Palmer, marcou época nesse mesmo programa jornalístico de final de noite.


O Rock progressivo italiano da Premiata Forneria Marconi apareceu um pouco também no Jornal Hoje, no início das tardes, além do Jazz Rock do Passport, uma banda alemã que chegou a se apresentar no Brasil ainda naquela década de setenta. 

Mas aí a década de setenta foi terminando e o direcionamento foi mudando, tirando o Rock das vinhetas e o substituindo por muzak eletrônico, inclusive usando tal artifício para repaginar temas tradicionais como o do Jornal Nacional; Globo Repórter; Fantástico; Jornal da Globo e Jornal Hoje; seus jornalísticos mais longevos, fora os mais novos que já nasceram com tal orientação.

8 comentários:

  1. Antes era mais autêntico, muito legal o seu texto, sempre bem explicativo, obrigado pela ótima leitura e conhecimento.

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  2. Tempo bom onde ao menos na trilha musical, havia o esmero em escolher temas cerebrais e de alto quilate artístico. Nos dias atuais, é tudo muzak eletrônico, desolador...

    Grato por ler; comentar e elogiar, amigo Kim !!

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  3. Muito legal ter participado deste tempo global. Foram em vários momentos... Interessante seu texto!

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  4. Que legal que gostou. Lourdes !!

    De fato, tivemos esse privilégio de ter trilhas musicais mais robustas para o jornalismo global.

    Grato por ter lido e comentado !!

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  5. Jay Rama!!! Só um pequeno equívoco...a música "Summer'68 é do disco "Atom Heart Mother" (1970) do grupo musical inglês Pink Floyd,e não do "Ummagumma". Aquele abraço a todos!!! E que Shri Rama abençoe-os!

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. O Jornal Amanhã da Rede Globo nos anos 70 e que hoje equivale ao Jornal da Globo, teve "Karn Evil 9 Third Impression" do Emerson , Lake and Palmer como prefixo musical, e o Banco Nacional utilizou "The Endless Enigma" também do ELP como tema de sua publicidade ainda nos anos 70.

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