terça-feira, 29 de setembro de 2015

Som Livre Exportação

Por Luiz Domingues

Quando a Rede Globo começou a despontar como líder de audiência, aproveitando-se dos primeiros sinais de decadência da Record, e com a estagnação da Tupi (apesar do seu  retumbante sucesso recente, como havia obtido com a telenovela revolucionária, Beto Rockfeller), foi sem dúvida com a crescente ascensão de seu núcleo de dramaturgia, que isso se deu.

Claro que devemos considerar os fatores extra-operacionais que levaram a Globo à liderança (ditadura, Time Life, incêndios estranhos nas emissoras concorrentes...), mas pensando só no fator artístico, foi com as novelas que a Globo começou a sobressair-se, e dentro desse conceito, o filão das trilhas sonoras exclusivas para tal veículo, lhe despertou a atenção.

Já citei Beto Rockfeller anteriormente, mas cabe relembrar que o fato dessa telenovela da Tupi, ter usado o conceito da trilha sonora exclusiva, com músicas escolhidas a dedo para a trilha sonora, e com a repetição de certas canções para marcar personagens, só reforçou isso para a Globo.

Com essa idéia na cabeça, em 1969, a Globo lançou sua gravadora própria, chamada “Som Livre”, com o intuito inicial de lançar discos com a trilha de suas novelas.

Esse passou a ser um filão e tanto no mercado fonográfico, certamente.

                      

No ano de 1970, a Som Livre já estava consolidada no mercado fonográfico com o lançamento de seus discos de trilhas de novelas, mas expandia-se, e assim, passou a contratar artistas de carreira, também.

Em 1971, num movimento contrário, usou então a TV para se autopromover, indo no caminho inverso do qual fora criada, com a criação de um programa chamado “Som Livre Exportação”.    

  Tim Maia e os Mutantes

A ideia era fugir do formato antigo dos festivais, que pareciam estar esgotados (embora a própria Globo ainda insistisse com o FIC, seu festival, até 1972 e em 1975, arriscou-se no “Abertura”), e dessa forma, o “Som Livre Exportação” se colocava como uma mostra de vários artistas, sem a caretice da competição.

Outro ponto interessante, era o de ser eclético ao extremo.

Sem fechar com um ou outro estilo musical, pelo contrário, o “Som Livre Exportação” reunia artistas aparentemente díspares entre si, num caldeirão multifacetado, onde o Rock; a MPB, e a Soul Music “brazuca”, muito em alta naquele instante, fossem representados, sem nenhum conflito entre si.

Elis Regina, Wilson Simonal e Ivan Lins

O programa durou entre novembro de 1970 e agosto de 1971.

Outra idéia sensacional foi também a de realizá-lo ao vivo, e de maneira itinerante, dando-lhe uma aura de “tour”, o que gerou uma grande expectativa do público, sem dúvida.

Segundo consta na divulgação oficial da Globo, havia uma segunda intenção da gravadora / emissora, em vender o pacote para o exterior, levando o seu cast aonde fosse possível, mas no frigir dos ovos, esse ambicioso plano acabou não ocorrendo, com a produção ficando restrita ao cenário brasileiro, apenas.

Independente disso, foi um estouro, com lotação esgotada, por onde passou, e audiência maciça na transmissão da TV.

A primeira edição ao vivo, ocorreu em São Paulo, no Palácio de Exposições do Anhembi, em março de 1971.


Os registros oficiais marcaram 100 mil pessoas presentes no evento.

Sei que o pavilhão de exposições comporta uma multidão de porte de estádio, mas apesar de realmente ter lotado, creio o número “100 mil” é um pouco além da realidade, superestimado, portanto.


Contudo, certamente que foi um número alto, gerando euforia para os produtores.

A seguir, foi realizado no campo do “Canto do Rio”, em Niterói; e no mesmo mês, em Brasília, aproveitando a ocasião em que a Globo inaugurava a Globo Brasília.

Voltando a São Paulo, novas edições ao vivo ocorreram no Clube Sírio-Libanês, e outra no Tuca, o Teatro da Universidade Católica, PUC.

Numa viagem à Minas, visitou Ouro Preto, e Belo Horizonte.

Elis Regina e Ivan Lins o apresentavam, e claro que participavam ativamente cantando e tocando, também.

Foi ali, inclusive, onde o hit “Madalena”, de Ivan, e interpretado pela Elis, estourou, potencializado também pelo fato de estar na trilha sonora de uma novela da época (“A Próxima Atração”), portanto fazendo valer o propósito inicial da Som Livre, em divulgar seus discos de novelas.

Além de Elis e Ivan, se apresentaram também no “Som Livre Exportação”: Gonzaguinha; Aldir Blanc; Chico Buarque de Hollanda; Clementina de Jesus; Tim Maia; Toquinho & Vinicius; Tony Tornado, Brazucas e na ala Rocker, A Bolha e Os Mutantes.

A concepção de enquadramentos era mais ampla do que a usual na TV da época, certamente bebendo da fonte dos documentários de Rock, pois explorava closes dos artistas em expressões faciais mais detalhadas, e da performance dos instrumentistas, mesclando-se com a expressão das pessoas da audiência, mostrando reações espontâneas.

Ficou na grade da Globo, às quintas, às 20:30 h e não dá para não deixar de comparar que se entre 1970 e 1971, nesse horário, o cidadão comum ligava a TV de sua sala de estar e dava de cara com música dessa qualidade, o panorama da atualidade na mesma emissora é bem outro, infelizmente...

Tenho uma boa lembrança pessoal dessa atração, da qual assisti todas as suas edições, e nessa ocasião, com 10 para 11 anos de idade, já estava bastante interessado em música, e portanto, curti muito.

A última edição do programa foi um especial enfocando a velha guarda da MPB, com Ciro Monteiro; Mário Lago; Cartola, e membros da Escola de Samba Mangueira.

O motivo de seu cancelamento, nunca foi explicado convincentemente.

Se dava audiência; promovia a gravadora; intensificava a divulgação dos discos, e das trilhas das novelas; e era um estouro quando das versões ao vivo, realmente acreditar que a frustração em não ter emplacado tal pacote para o exterior, não parece plausível.

É muito mais provável que a ditadura deva ter “sugerido” à emissora que não continuasse, mesmo porque, Ivan Lins era persona non grata para o sistema; isso sem contar Chico Buarque, pior ainda, e o fato de Caetano Veloso ter participado de uma edição, numa rara vez em que veio ao Brasil, em 1971, no período em que estava oficialmente exilado em Londres.

De qualquer forma, embora tenha tido curta duração, a atração foi bastante salutar para a música brasileira daquele momento, levando muita qualidade sonora para a tela.

O jornalista Nelson Motta era o mentor da idéia, mas havia também outras pessoas de qualidade nessa história, como Augusto Cesar Vanucci; Eduardo Ataíde; Carlos Alberto Loffler; Walter Lacet, e Solano Ribeiro, este, um dos cabeças dos históricos festivais da Record nos anos sessenta.

Inacreditável que não tenhamos mais música dessa qualidade na TV, e não é admissível achar que a safra atual não seja boa.

Tem muita gente ótima por aí, mas escondida, e à margem do que os marketeiros da atualidade “acham” que vale a pena investir.

Uma pena mesmo que hoje se ligue na Globo às 
20:30 h das quintas, e não vejamos Elis Regina apresentando aqueles artistas todos, mandando um som violento, mas ao contrário, damos de cara com a novela das “sete”, que ainda não encerrou sua ode às favelas...
 



13 comentários:

  1. Viajei aqui no texto e nas imagens, Luiz :)

    Só faltou citar os discos gravados com o titulo Som Livre Exportação !!!

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    1. Mas que legal que curtiu, Sidnei !

      Tem toda a razão, eu deveria ter mencionado também os LP's que a Som Livre lançou, baseados nessa atração televisiva. Quis focar só no programa, mas caberia sem dúvida falar dos discos e que tinham uma seleção de artistas sensacionais, diga-se de passagem.

      Muito grato por ter lido, comentado, elogiado, e nos trazido esse adendo enriquecedor !

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    2. Que bom que gostou, Christine !

      Grato pela atenção em ler e comentar !!

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    3. todo mundo da chamada esquerda contratados da globo que era da direta?tendi não

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  2. Oi Luis. Saboreei o seu texto com muita satisfação. Dois programas foram muito marcantes para mim: o de Caetano Veloso que não sei se você se recorda foi marcado por risos na platéia porque o que se viu não foi o Caetano revolucionário e sim um Caetano comportado e talvez, temendo represálias; o segundo com o fantástico Tim Maia que estava, vamos dizer assim, com a corda toda. Um detalhe que não mencionou foi a interação com a plateia, um modelo que mais tarde foi adotado pelo Serginho Groissman. Forte abraço!

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    1. Grande Vinicio !

      Eis aí uma das grandes lembranças que temos daquele fim de anos sessenta/início dos setenta. Verdade, o Caetano participou, mas estava comedido, porque a pressão da ditadura era imensa. Só o fato de terem lhe concedido uma licença para entrar no Brasil para visitar a família, já era algo fora do padrão da rigidez espartana da ditadura, imagine então ele solto na TV naquele momento em meio àqueles freaks todos em rede nacional...devem ter vigiado-o de muito perto, certamente. Tim Maia, ao contrário, estava doidão e não quis saber, mandou um som da pesada.

      Verdade, a interação com a plateia era bem bacana e de fato, pode ter sido precursora do modelo que o Serginho Groissman adotaria muitos anos depois na TV. Groismann nessa época era um estudante secundarista com cabelo pela cintura no Colégio Equipe, a escola mais freak de São Paulo.

      Há de se destacar também que esse tipo de interação com jovens, intercalando bandas de Rock, também já acontecia no programa "Jovem Urgente", da TV Cultura de São Paulo, desde 1969, comandado pelo psicanalista Paulo Gaudêncio, onde Mutantes, Novos Baianos e outros, se apresentaram.

      Muito legal sua participação aqui no Limonada Hippie, trazendo sua contribuição, com lembranças boas.

      Abraço !!

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  3. Infelizmente não acompanhei esse programa, mas certamente concordo contigo, gostaria muito de ligar meu televisor e assistir qualidade sendo transmitida. É deprimente o que se vê hoje em dia em vários canais de TV.

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    1. Verdade, mesmo não tendo acompanhado na época, sua percepção em estabelecer um comparativo com o que vivemos nos dias atuais, é perfeita.

      É desolador mesmo o baixo nível cultural que observamos na atualidade, e escancara-se que é absolutamente intencional da parte dos marketeiros que definem o rumo da difusão cultural neste país. Sua sanha por ganhar dinheiro fácil, explorando o mais abissal escalão da subcultura para atingir a massa, é indecente.

      Apesar de tudo, sou um otimista por natureza, e sonho com uma virada radical no direcionamento, nem que for por motivo de implosão desse modelo atual, e certamente que um dia isso vai se ocorrer.

      Grato por ler e comentar com propriedade !

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  4. Realmente Luiz, era ótimo! Como o seu texto!

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    1. Pois é, Lourdes !

      Também curtia muito e sinto saudade desse tempo onde a tecnologia era tosca, mas o nível artístico ficava na estratosfera. Hoje, vivemos o contrário...

      Grato por ler, comentar e elogiar o texto !

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  5. Nossa Tigueis, que memória hein! Parabéns!
    Eu me lembro de ter assistido a alguns, principalmente quando a Elis cantou Madalena, mas não com essa riqueza de detalhes. Realmente voltei no tempo. Obrigado!
    Lembrei da Tupi com o Beto Rockfeller e também a novela Dom Camilo e os Cabeludos, com o ótimo Otelo Zelloni e uma gang de motoqueiros cabeludos! Eu curtia! Abraço!

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    1. Mas que legal que curtiu, Lello !

      Verdade, a Elis cantando "Madalena", acompanhada do Ivan Lins ao piano, foi sensacional. Um exemplo de como a atração era boa.

      Sim, o grande Otelo Zelloni, fazendo o italianão em meio aos cabeludos que começavam a ser absorvidos pela sociedade, como se estivessem se acostumando com a ideia...

      Grato por ler, comentar e elogiar a minha memória, mas a sua também voou longe com essas observações que fez.

      Abração !!

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