quinta-feira, 25 de junho de 2015

A ginga e a coragem de Miriam Makeba

Por Luiz Domingues.


Quando falamos da influência da raiz africana na música criada nas três Américas, a grosso modo,  é fácil estabelecer um conceito generalizado.
          
Na América do Sul, o Brasil absorveu a cultura afro, principalmente na formação do seu Samba; na América Central, pulverizou-se em vários países, criando o acento caribenho em diferentes ritmos; e nos Estados Unidos, gerou os dois grandes troncos que tornaram-se árvores frondosas, e com muitos galhos : Jazz & Blues.
       
Mas o movimento inverso também causou impacto no continente africano.

Se a sua influência fora brutal na construção de tantas escolas musicais diferentes, séculos depois, a música pop das Américas e da Europa, voltaram tal qual um boomerang, e redefiniram o rumo da música pop africana moderna, numa retroalimentação muito interessante.
Muitos artistas africanos foram reverenciados na música comercial pop ocidental, e seu som era bem isso que descrevi superficialmente acima, ou seja, uma mistura das tradições folclóricas locais; suas raízes ricas em sonoridades muito coloridas; alegres, e de divisões rítmicas muito sofisticadas, com a música pop ocidental e mega comercializada, que por sua vez, tinha em suas raízes mais profundas, a mesma fonte africana.

Em meio a esse boom da música africana, alguns artistas, oriundos de nacionalidades diferentes, desse grande continente, tiveram  oportunidades no show business internacional.
                                       
Foi o caso de Miriam Makeba, uma sul-africana.

Cantora de enorme graça e ginga, Miriam teve projeção internacional, mas não só por conta de sua obra e performance como cantora.


O fato, é que Miriam tinha muita consciência sócio- política, e sendo negra, numa África do Sul sob regime político racista, tornou-se uma voz contra o execrável regime do Apartheid.

Tentando a vida artística na América e /ou Europa, Miriam, participou em 1960, de um documentário denominado “Come  Back , Africa”, cuja exibição no famoso  Festival de Cinema de Veneza, chamou a atenção do mundo para o racismo na África do Sul, mas criou-lhe um problemão pessoal, pois seu país caçou-lhe o passaporte, e mais que isso, a cidadania, tornando-a apátrida.

Perambulando por Londres, tornou-se amiga do ator/cantor americano, Harry Belafonte, com o qual estabeleceu parceria.
Sendo também um ativista anti-racista, e um incansável batalhador pelos direitos civis iguais para os negros na América, Belafonte ganhou a companhia de Makeba no ativismo e a ajudou a construir uma carreira pop internacional, participando de vários lançamentos de discos, singles, e LP’s da cantora africana.

Entre tantas canções, Miriam lançou “Pata Pata”, em 1966, que tornou-se febre mundial, entrando nos charts, numa época em que Os Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan e diversos artistas da Black Music, o compunham normalmente.
Mas como o ativismo era forte para ela, não se deitou no berço esplêndido do sucesso pop imediato, e continuou agindo e incomodando muita gente, certamente.

Para agravar a animosidade das forças contrárias às suas idéias libertárias, casou-se em 1968 com um ativista que era monitorado pela CIA / FBI, Pentágono etc etc.

Tratava-se de Stokely Carmichael, simplesmente o líder dos Panteras Negras, uma partido revolucionário, apócrifo, e não reconhecido pelo governo americano, por trazer ideias explosivas à mentalidade americana, em seu espectro político, como o socialismo, por exemplo e claro, seu carro chefe era a luta pelos direitos civis dos negros.

Stokely  Carmichael foi o criador da expressão “Black Power”, que extrapolou o statement político, marcando época, não só na América, mas espalhando-se pelo mundo todo.
Em 1968, Miriam veio ao Brasil e surfou forte na onda de seu sucesso, “Pata, Pata”.

Já na chegada ao Rio, foi recebida no aeroporto pela bateria da Escola de Samba Mangueira, caindo nos braços do povo.
Visitou todos os programas de TV possíveis e imagináveis da TV no Rio e São Paulo, causando furor com seu mega sucesso.
“Pata, Pata” tinha um swing ocidentalizado que muito se assemelhava ao R’n’B, e a percussão lhe dava um certo ar caribenho, muito dançante.

Numa época em que a Black Music americana estava se popularizando fortemente aqui no Brasil, e Wilson Simonal comandava a onda da “pilantragem” na MPB, a canção de Makeba caiu no gosto popular, instantaneamente.

Claro, brincalhão como sempre, o povo brasileiro tratou de aprontar uma avacalhação com a letra da canção.
Cantada por Makeba num dialeto africano (Xhosa), provocou uma paródia em português que ficou tão famosa quanto a versão original, pela similaridade fonética e claro, pelo caráter galhofeiro que tanta agrada os esculhambadores brazucas...

Onde ela cantava :
“Sata wuguga sat ju benga, sat si pata pata”
O povo se acostumou a cantar :
“Tá com pulga na cueca, vem cá que eu mato”

Pilhéria à parte, Miriam encantou os brasileiros, onde me incluo, vendo-a na TV, na época, 1968.
Sua carreira foi bastante prejudicada depois disso, pelos momentos tensos perpetrados pelos Panteras Negras, cuja ligação dela era total, por conta do marido.

Tiveram que deixar a América inclusive, estabelecendo residência na Guiné.
Em 1973, ela separou-se de Carmichael, mas continuou sendo vigiada e cerceada em muitos aspectos pelas convicções sociopolíticas.
No ano de 1975, participou ativamente do movimento de libertação de Moçambique, inclusive contribuindo com sua música, “A Luta Continua”, que serviu de slogan para a luta pela libertação de Portugal.

Nos anos 80, ficou mais afastada da vida artística e num momento muito difícil, onde perdeu uma filha, mudou-se para a Bélgica.
Quando Paul Simon lançou o LP Graceland, todo ambientado na sonoridade da música sul-africana, Makeba embarcou nessa onda, e chegou a participar da turnê de divulgação do álbum, como artista convidada de Simon.

Quando o apartheid finalmente encerrou-se na África do Sul, e Nelson Mandela se tornou o presidente daquela nação, Makeba pode enfim retornar à sua pátria, com o restabelecimento de sua nacionalidade.
Momento bonito, Mandela em pessoa a recepcionou no aeroporto, mostrando que a luta havia valido a pena para a artista e ativista.

Seus últimos anos foram tranquilos em solo pátrio, mantendo uma carreira artística local, até falecer em 2008.

Ela não teve apenas “Pata Pata” como sucesso, mas essa canção em questão, a marcou indelevelmente e proporcionou muitas regravações, algumas bacanas inclusive, caso do Osibiza, uma banda de Rock genuinamente africana, mas que era muito respeitada por rockers europeus e americanos, e de fato, era muito boa.

Makeba teve uma morte dramática, mas muito emblemática para qualquer artista, ou seja, morreu no palco, numa apresentação que fazia em Castel Volturno, na Itália, vítima de um ataque cardíaco quando estava cantando.

Não foi exatamente ali durante o concerto que realizava, mas algumas horas depois no hospital, mas pode-se dizer que morreu fazendo o que mais gostava.
Essa foi Miriam Makeba, uma artista pop africana sensacional; ativista;  mulher corajosa, e de muito valor.
 



10 comentários:

  1. Que vida maravilhosa. Conseguiu voltar ao se país, sendo recepcionada pelo grande Mandela e fez o que mais gostava até o final. Sensacional!

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    1. Sim, extraordinário sob esse aspecto, mas não significa dizer que foi uma vida pessoal maravilhosa, pois ser apátrida é um das piores coisas que possam acontecer à um pessoa, caso dela e de outro evento dramático na história, como o de milhares de voluntários na Guerra Civil Espanhola, que após o término do conflito, ficaram vagando sem rumo, rejeitados por seus países de origem e não aceitos nem pelos que simpatizavam com a causa anti-fascista.

      No caso de Makeba, sem dúvida que sua coragem foi extraordinária para continuar exercendo sua arte, apesar dessa condição de perseguida, vigiada...

      Para piorar, foi se casar com um líder dos Panteras Negras, ou seja, com CIA e FBI fungando no seu cangote, não deve ter sido fácil...

      Grato por ler e comentar !!

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    2. Entendo que ela passou por inúmeras dificuldades sim, mas sempre com perseverança. Deve ter tido seus momentos de revolta com a vida, mas isso não a fez entregar os pontos. Quando digo que sua vida foi maravilhosa é porque tevê enfoque, superação e vitórias. Para mim isso é espetacular, sem olhar tanto para os reveses que precisou passar.
      Ela não ficou estacionada na posição de coitadismo, seguiu em frente, é a isso que me refiro por boa vida!

      Tenho muito gosto em ler e comentar, sempre aprendo mais!!

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    3. Ah, sim...vendo por esse ângulo, tem razão.

      Miriam seguiu em frente, mesmo passando por tragédias pessoais e certamente que não se entregou ao "coitadismo", prática normal para a maioria das pessoas que passam dificuldades assim.

      Valeu pelo adendo !

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  2. Foi uma mulher de fibra e super talentosa, muito bom saber mais sobre ela e sua história de vida, ótimo texto.

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    1. Mas sem dúvida alguma, amigo Kim !

      Estou muito feliz por saber que apreciou a matéria, aumentando ainda mais a sua admiração por Miriam.

      Grato por ler, comentar e elogiar-me !

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  3. Bom, nada a acrescentar aos comentários acima...apenas a letra de "Pata Pata" adaptada ao português, como menciona, eu e meus primos, toda a molecada, cantávamos - "Tô com pulga na cueca, já vi, vou catá (sic)" diferente do colocado e, a meu ver, melhor "adaptada" rss...brincadeiras à parte me lembro dela com Paul Simon em turnê e nada mais adequado do que ela ter se juntado ao líder dos Panteras Negras...naquela época e situação, acho que eu, na mesma situação, teria feito o mesmo ...mais uma ótima lembrança e texto! Bjs! inspirado!

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    1. Sensacional o seu adendo, Christine.

      De fato, a versão da letra parodiada que eu conhecia, foi a que redigi no texto, mas a que você conhecia e cantava na infância, se encaixa foneticamente, muito melhor.

      Quanto ao que acrescentou, sim, mulher corajosa ao se envolver com os Panteras Negras,ainda levando-se em conta que vivia situação incômoda de ser apátrida,e com histórico de luta contra o racismo em seu país.

      Grato pela leitura e comentário !

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  4. Confesso que não conhecia a história de vida desta valorosa artista.
    Obrigado por trazer à tona!

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    1. Mas que legal saber que curtiu, Helder !

      Uma artista como Makeba não pode cair no esquecimento.

      Grato por ler e postar comentário !!

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