terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Alphaville influenciou 2001 - uma Odisséia no Espaço, ou as semelhanças são meras coincidências?

                             

“Às vezes a realidade é complexa demais para a transmissão oral. A lenda a recria numa forma tal que possa correr o mundo”. Essa frase é dita logo no início de Alphaville, e justifica o cenário surreal que é criado para que essa história seja contada.

                           

O título do filme é o nome de uma cidade localizada em outra galáxia, e é comandada por “um programador gigante das sociedades de antigamente”, ou com uma visão atual, um computador, chamado Alpha 60.  Conhecemos a cidade através de Lemmy, um agente secreto, que pouco a pouco vai percebendo o quanto a cidade e seus habitantes são sombrios e fantasmagóricos, chegando a compará-los a vampiros.  As pessoas viraram escravas das probabilidades, da ciência e da razão. Existe aí uma semelhança com o cenário de 2001 - uma Odisséia no Espaço, onde os tripulantes vivem sob o comando de Hall, um computador que comanda a nave onde viajam, e da mesma forma confiam plenamente na máquina, chegando a depender dela para sobreviver.

Alpha 60
                                                                             Hall
Logo que Lemmy chega no hotel onde ficará hospedado, se encontra com uma mulher que diz não conhecer a palavra apaixonar-se.  Na cidade é proibido demonstrar qualquer tipo de sentimento, ou usar a palavra por que para questionar. A palavra porque só pode ser usada em frases afirmativas. Há uma crítica clara à manipulação, característica de governos repressores.  Um habitante diz que o método usado por eles é a persuasão, chegando a existir o “ministério da persuasão”, e que os que não se adaptam a ela são eliminados.  O computador Hall de 2001 também manipula os astronautas para conseguir seu objetivo, chegando a eliminá-los quando se sente ameaçado.

Alphaville é cheio de simbologias e mensagens profundas nas entrelinhas de seus diálogos.  O personagem principal diz que “é sempre assim, nunca se compreende nada, e um dia isso acaba nos matando”.  Com essa frase ele nos lembra a importância de se ter uma visão crítica sobre o mundo em que vivemos para que não sejamos manipulados.  

No filme 2001, ao invés de diálogos com mensagens profundas, o que nos impressiona é a perfeição técnica e poética com quais as imagens são feitas. As músicas também são extremamente simbólicas, como por exemplo, quando a música Danúbio Azul toca enquanto vemos as imponentes naves espaciais. Essa combinação das imagens com a música representa como o homem encara a tecnologia, como uma maravilha solucionadora de todos nossos problemas; O que não dura muito tempo, já que no decorrer do filme desconfia-se que o computador apresenta alguns problemas, e por isso não é infalível como se pensava.  Como em Alphaville, o computador se mostra muito mais inteligente do que os tripulantes, manipulando-os ao ponto de levá-los a morte.

                     

No filme de Godard, algumas palavras constantemente vão sumindo, como por exemplo, ternura.  Há uma cena onde um homem é condenado à morte por ter chorado quando sua mulher morreu. Antes de ser executado ele diz que “nada há no homem senão amor”.  Em algum momento do filme um personagem diz que os seres mutantes são superiores e falam coisas que eles não compreendem, e quando alguém diz algo que eles não compreendem, é eliminado. Um habitante clama a Lemmy para que destrua o computador para que os que choram sejam salvos; e o personagem vai à busca de seu criador, com o objetivo de destruí-lo. O personagem principal se apaixona por Natacha, uma das habitantes do local, e ela também se apaixona por ele, e por isso passa a conhecer a palavra amor.
 
No final da história, Lemmy consegue destruir Alpha 60, e os seus habitantes, por estarem completamente sob o controle da máquina, acabam entrando em colapso, inclusive Natacha.  O filme termina com Lemmy dizendo a Natacha que a única forma dela se salvar, seria pronunciando as palavras eu te amo.  E dizendo essas palavras, Natacha é salva.

Em 2001, ironicamente, o computador possui, (ou simula possuir), muito mais sentimentos humanos do que os próprios humanos, chegando a pedir clemência quando é desativado pelo astronauta, muito frio e calculista na maior parte do tempo.
Por se tratar de uma época futurista, os dois filmes fazem uma projeção do que o mundo pode se tornar se continuarmos supervalorizando a tecnologia e a lógica e subestimando a humanidade e os sentimentos que os acompanha.

Vendo esses filmes feitos em 1965 e 1968 eu penso o quanto será que desde então as pessoas conseguiram entender deles, ou aplicar algumas questões levantadas por eles em suas vidas. Será que tentaram evitar certas catástrofes, ou simplesmente deixaram acontecer? Ao invés de tentar entender a mensagem que eles quiseram passar, parece que principalmente em relação a 2001, limitaram-se a apreciar as imagens e a tecnologia apresentada no filme, e passaram até a copiar os designers dos objetos. Existem grandes semelhanças no design de alguns objetos como a pequena nave que usam para transitar no espaço com alguns tênis usados nos anos 80, e a roupa dos astronautas, com o casaco difundido por Michael Jackson na mesma época.

                             

Algumas cenas em 2001, inclusive, parecem até profetizar o que já está acontecendo na atualidade, como quando os astronautas conversam com os seus parentes virtualmente através de uma videoconferência, ou quando assistem TV através de um aparelho que lembra muito um tablet. Na verdade esses objetos não são tão proféticos assim, já que Kubrick tinha contato com os cientistas da NASA na época, e estava ligado nas novas tecnologias que estavam começando a surgir. Mas o que era profético sim, era como a tecnologia iria separar fisicamente o ser humano, e conviver com eles mais afetivamente e constantemente mais do que os próprios humanos.  Isso tudo me remete à frase dita no filme Alphaville, “é sempre assim, ninguém nunca compreende nada”. 

                             

Apesar de toda tecnologia, o objeto não-identificado que aparece no início do filme 2001 persiste como um mistério até o final nos traz algumas questões.  O que representa o tal objeto? Nossas questões mais profundas não resolvidas? O mistério da vida? Deus?
2001 nos faz refletir sobre o que é realmente fundamental e importante na vida. Será que não estamos pensando demais em criar coisas e explorar outras regiões, sendo que não resolvemos ainda problemas interiores e sociais mais básicos e antigos, como o ódio, a intolerância, o egoísmo, a fome e a desigualdade social; Ou filosóficos, como o sentido da vida, por exemplo?

Em relação a essa questão, concordo plenamente com Godard, acredito que só o amor possa nos salvar.

Um comentário:

  1. Muito boa a matéria !

    Gosto dos dois filmes e acho que realmente existem alguns traços em comum, como a matéria sugere. A questão do comando total da situação por uma inteligência cibernética, por exemplo.

    E nesse caso, tal tipo de abordagem também é encontrada em outros filmes contemporâneos desses dois citados. É o caso de "Colossus, The Forbiden Project", lançado em 1970, contando a história "futurista" da conspiração de dois grandes computadores, o americano e o soviético, com inteligência para detonar todas as ogivas atômicas das duas superpotências, e que se unem, para dominar a humanidade.

    Voltando à matéria, Alphaville mostra uma sociedade asséptica, sem emoções e que se salva, quando professa o amor, como combustível. Surpreende vindo de Godard, que sempre direcionou sua obra para uma acidez descrente do sentimentalismo, e pelo contrário, como socialista convicto, sempre mostrando o pragmatismo com certa aspereza, inclusive. Claro, falando da matéria, só tenho a concordar com a autora, ou seja, também acho que só o amor pode nos levar a algum lugar melhor.

    No caso de 2001, a questão da origem da vida suplanta o mote principal que é o domínio de Hal, portanto, pode estar aí delineado outro ponto em comum com Alphaville, ou seja, independente de qualquer tipo de domínio da parte de algum poder ditatorial, ainda assim, por mais implacável que possa parecer, não é capaz de vencer o amor.

    ResponderExcluir