domingo, 14 de setembro de 2014

O Limite de Mário Peixoto - O tempo não existe.

Matéria escrita a partir de trechos retirados de "Onde a Terra acaba", filme de Sérgio Machado.




Em 1930, com apenas 21 anos, Mário Peixoto realizou no Brasil um dos mais belos e inovadores filmes da história do cinema mudo. Em 1998, críticos e cineastas brasileiros apontavam Limite, o seu primeiro filme, como a mais importante obra cinematográfica já produzida no país. Em 1992, Mário Peixoto morreu aos 84 anos sem haver realizado um segundo filme. 

                              

"A realidade para mim não tem consistência. O que se há de fazer? Não há dúvida que a vejo. E só. E se me refiro a ela é só num tom ou num pensamento que a gente se refere a coisas que não constam nem impedem porque não me afetam. A realidade para mim não tem importância. A imaginação sim, substitui tudo e convence. Aliás é só o que existe para mim. Vivo dela, porque é o que realmente me faz vibrar. Crio e apago ao meu feitio."

(Trecho retirado de seu diário).

Em 1927, Mário Peixoto foi enviado pela família para estudar na Inglaterra. Achava a Inglaterra fria demais. " Aqui na Inglaterra é tudo abominável, chuva e mais chuva o tempo inteiro. Os ingleses são um povo frio e duro". Dizia que até então não tinha feito nada que realmente desejasse, já que tinha o desejo de ser ator, mas acreditava que o pai não iria aprovar sua escolha. Durante sua estadia no país, assistiu o filme Metrópolis, e adorou. Disse também que nunca teve amigos em sua vida, mas que os amigos que fez foi a única coisa boa na Inglaterra.


"Meu estado é lastimável, meio alegre, meio triste".

Ainda enquanto estava na Inglaterra, teve a inspiração para fazer o filme Limite. Segundo ele, veio como um mero acaso. Veio da idéia de um folheto que mostrava a imagem de uma mulher que tinha os braços de um homem em volta dela com uma algema. A partir daí, as imagem que compõem o filme, começaram a surgir na sua mente.

Voltando ao Brasil, assistiu um filme de Humberto Mauro chamado "Brasa dormida". reuniu-se com alguns amigos e começaram a conversar sobre a idéia de que já se fazia cinema no Brasil. Um deles sugeriu: "E por que nós, essa turma que não faz nada também não faz uma turma de cinema?" Mário disse que tinha alguma coisa escrita que talvez servisse para filmar. Seu roteiro foi aprovado.


Procuraram Aldemar Gonzaga, que curiosamente foi confundido por Mário, que anotou seu nome como "Luiz Gonzaga". Aldemar sugeriu a Mário que um filme como aquele deveria ser dirigido por quem o escreveu. Humberto Mauro indicou um fotógrafo, Edgard Brasil. Faltava encontrar as moças para interpretar o papel feminino. Seu primo indicou Alzira Neves, que vendia bombons em seu estabelecimento, na rua 7 de setembro.  Perguntou se ela gostaria de trabalhar no cinema, e ela disse que era o que mais queria. Depois disso, teve que convencer a mãe da moça de que era um trabalho sério, sem cenas de nudez. A mãe aprovou. A outra atriz do filme foi arranjada no album de Aldemar Gonzaga.

Partiram para Mangaratiba em 1930. Foi uma grande aventura. " Eu não tinha praticamente experiência, mas nos atiramos com coragem numa grande história de fazer filme". Foram a fazenda de seu tio, que cedeu parte da casa, transporte e operários. Ficavam morando na fazenda, e rodando com um carro para filmar. Para as cenas de mar, alugaram um barco. Segundo a atriz do filme, chegaram a dormir a bordo porque tinham algumas cenas que Edgard idealizou que a luz tinha que ser aquela luz coadinha, de manhã cedo antes do sol nascer.

Mário Peixoto disse que enquadrava cada plano e Edgar sempre realizava com perfeição. Para as cenas com câmera em movimento Edgard idealizou um andador com 2 homens na frente e 2 homens atrás, e ele dentro. Ele os ensaiava como bailarinos. Quando os da direita iam com o pé direito, os da esquerda iam com o pé esquerdo para não haver balanço. Para isso treinaram os empregados da fazenda do tio que trabalharam todo o filme com esse movimento.


Segundo Mário, Edgard Brasil era de uma inventividade enorme, sem ele o filme não poderia ter sido feito. Edgard criava máquinas que não existiam ainda no Brasil. Inventou por exemplo, um elevador que servia como substituto para o que seria a grua atual. A película era revelada a noite e no dia seguinte já se podia projetar.

Qual foi o segredo do sucesso de Limite? Além do enorme talento e boa vontade da equipe, Mário Peixoto realizou o filme com total liberdade. Realizou com recursos próprios e com uma equipe super sintonizada. Era um jovem talentoso com total liberdade de criação.

Limite foi exibido em maio de 31, em um cineclube, sendo muito bem recebido, apesar de nunca ter sido exibido comercialmente na época.

"Limite não fez dinheiro e nem poderia dar, não era esse objetivo. O que quis mostrar com o filme é que o tempo é uma coisa ilusória, não existe". 

                                                 FILME LIMITE - MÁRIO PEIXOTO
                                   

Tanto estava certo sobre o conceito de tempo, que até hoje o filme é uma obra prima que atravessa as décadas sem se tornar velho, obsoleto.

Nos anos seguintes, Mário tentou realizar um filme de grande produção no qual não foi bem sucedido, e escreveu alguns roteiros também, mas não chegou a realizá-los. "Tive idéias para filmes mas não tive coragem para realizá-los. Eu achava que não iria atingir o Limite, no qual tive total liberdade".
                             

Parece que no nome do filme Mário já havia decretado o Limite de sua carreira cinematográfica, que apesar de curtíssima, foi super bem sucedida.
O filme até causou uma lenda assustadora dentro do cinema brasileiro de que nenhum filme nunca superaria O LIMITE.

Mas onde será mesmo que mora esse limite? Eu prefiro acreditar que como dizia Mário Peixoto, o tempo real não existe. O que existe mesmo é a imaginação, o tempo de cada um, onde existe a liberdade de se transitar, e porque não, tornar o filme Limite uma referencia na qual possa servir de inspiração para que esse LIMITE criativo no cinema brasileiro possa ser quebrado sim, e explorado pelas gerações futuras, sem medo.

Um comentário:

  1. Esse filme é uma obra prima. Conceitual, intenso e avantgarde, entra para o rol das grandes obras da história, em patamar de igualdade com os grandes filmes internacionais de sua época.

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