domingo, 27 de julho de 2014

Humauhaca na sessão maldita

Por Luiz Domingues.

Na São Paulo dos anos setenta, apesar das naturais limitações tipicamente tupiniquins e pelo azar de ter uma ditadura ferrenha pairando no ar, o astral do movimento hippie ainda fervilhava.

E apesar de todas as dificuldades inerentes que uma ditadura apresentava no cotidiano, a cena cultural e artística era intensa.

Nesses termos, haviam mu
itos espaços para shows, incluso locais nobres, onde normalmente parecia inviável a realização de shows de Rock.

Um bom exemplo dessa dinâmica, foi o histórico show dos Mutantes e do Terço, unindo-se para executar um tributo aos Beatles, no ano de 1977, em pleno Teatro Municipal.

Outro caso muito interessante se deu com o Humauhaca, banda que não tinha nem a metade da fama dos Mutantes e do Terço, mas que conseguiu lotar o Teatro Municipal, numa sessão maldita de tirar o fôlego.

Foi em 10 de dezembro de 1977, e eu eu estava lá com meus amigos, para conferir um concerto de Rock, que prometia.

Eram centenas de freaks, Hippies & Rockers espalhados por todos os setores do magnífico templo de cultura da paulicéia.

O contraste do luxo rococó da decoração do teatro, com as vestimentas dos freaks, produzia um efeito cinematográfico peculiar. Sentia-me no set de "Fearless with Vampires" do Romam Polanski, em meio à vampiros surrados, o que era bem engraçado.

O cheiro do patchouli, perfume comum para nove a cada dez hippies, aromatizou completamente o teatro e confesso, tal fragrância desperta-me um sentimento de saudade imenso.

A expectativa era total. 

Dava para sentir no ar, que o respeito pelo trabalho do Humauhaca era absoluto, quase de reverência e sintomaticamente, penso hoje em dia como o nível de percepção do público era muito mais elevado naquela época, pois o som que a banda fazia, não era nada popular.

Pelo contrário, era um som híbrido, com bastante influência de Jazz Rock, Fusion, elementos do Folk latinoamericano, Jazz Brazuca, Prog Rock e algo de MPB.


Não era propriamente uma banda de Rock, mas era aceita e querida pelos Rockers, pois acima de tudo, não haviam radicalismos acentuados nessa época e dessa forma, o comportamento padrão do "freak" era o de curtir música de qualidade, ainda que não houvesse o rótulo "Rock" carimbado na testa do artista.

Outro fator que tenho muita saudade : Sessão maldita com banda autoral e instrumental, lotando completamente o teatro municipal ? Você consegue imaginar algo parecido hoje em dia ? 

Luzes apagando-se...a banda entra no palco e faz um concerto magnífico...

O virtuosismo a favor da música e não o contrário, um conceito que também parece ter se perdido no tempo, infelizmente.

Olhos e ouvidos atentos na música cerebral de uma banda afiada como o Humauhaca, fazia o coração pulsar forte na emoção que provocavam.

Que prazer ouvir o baixo extraordinário de um músico que já era lenda naquela época. Olhos grudados no hermano porteño que destruía o seu baixo Fender e era história viva. Um filminho passando na minha cabeça : 1967 e vendo aquele bando de hippies argentinos e cabeludos na TV, acompanhando o baiano doido (Caetano Veloso), que falava coisas engraçadas; 1973 e o mesmo baixista freak na retaguarda dos Secos e Molhados...


E ainda havia um baterista superb, daqueles que fazia a carcaça da bateria trepidar inteira com tanto groove, coisa que o Pedrinho "Batera" do Som Nosso de Cada Dia também era mestre em fazer.

Um baita guitarrista rocker, um pianista mestre de harmonias "tortas" e um tremendo flautista...que noitada !!

Amigos, eu estava lá e vi tudo isso. 

Saudosista, eu ? 

Pode ser, mas vou lhes dizer : Adoraria que tivéssemos uma nova onda de astral tão boa quanto aquela, onde houvessem shows de bandas conhecidas ou não, toda a noite e inclusive à meia-noite, no Teatro Municipal, e com direito à um público absolutamente comprometido com a vontade de consumir música, avidamente.

Era assim que funcionava nos anos setenta, e eu desejo que volte a ser um dia. Se isso é ser saudosista, então está bem, sou mesmo...  


13 comentários:

  1. Pois é, muito legal, eu também estive lá... na época esses shows eram chamados de "concerto de rock"!!!

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    1. Carlinhos, acho inacreditável que não tenhamos nos conhecido pessoalmente nessa época, dada a quantidade de eventos em que estivemos juntos na década de setenta, sem nos conhecermos.

      Verdade, eram "Concertos de Rock" e essa pompa na descrição tinha o peso semântico adequado, pois eram de fato, espetáculos desse porte, dignos de assim serem denominados.

      Muito legal a participação !!

      Venha sempre ao LH, que tem "a nossa identidade".

      Abraço !!

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  2. Luiz, idem idem ao colega Carlinhos Machado. Tb estive em muitas sessões malditas e estava tb no show dos Mutantes& Terço.
    Desde sempre sou fã do Humauaca, principlamente da sonzera de baixo do hermano Willie Verdager !!

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    1. O que eu disse ao Carlinhos Machado, acima, vale para você também, Sidney.

      De fato, as sessões malditas eram sensacionais, com aquele astral contracultural que infelizmente não existe mais. Fui a várias, também e sinto muita saudade....

      E quanto ao Willie, penso o mesmo. Tremendo baixista !

      Valeu pelo comentário !!

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  3. Infelizmente não assisti a esses concertos, mas através de seu texto, escrito com tanta paixão, senti toda a energia que foram.
    Quanto as bandas citadas serei redundante a dizer que são maravilhosas.

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    1. Mas que maravilha saber que através de meu texto pude lhe passar a emoção daquela época.

      De fato, tenho uma saudade total daquele astral inigualável.

      Muito grato pela visita e comentário elogioso !!

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  4. Assistimos os caras no Teatro do Paço em Sto André, abriram com um som da Mahavishnu e depois só sonzeira deles, Chico Medori na batera quebrando tudo, Bandaça !!!

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    1. Que tempo bom quando o Teatro Municipal de Santo André promovia shows desse nível...

      De fato, os caras mandavam igual à Mahavishnu e nós sabemos, Sergião, que isso é só para quem manda muito...

      Muito bacana a sua visita e comentário trazendo mais um adendo sensacional !

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  5. Luiz, estive nesse show como em vários com esse formato sessão maldita. Me lembro que no parque no Ibirapuera tbm rolava rock!! Abração

    Dum

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    1. Dum, que sensacional saber que estávamos lá no Municipal de São Paulo no mesmo show em 1977, embora só tivéssemos a oportunidade de nos conhecer em 2000 !

      De fato, as Sessões Malditas de shows de Rock ou MPB, eram sensacionais !

      Verdade, no Parque do Ibirapuera também teve muito show.

      Grato por trazer esse adendo enriquecedor !!

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    2. Também no Parque da Aclimação, Bosque do Morumbi e USP... que onda, hein, sampa?!

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  6. Cheguei a sentir uma pontada de inveja de quem teve o privilégio de vivenciar esse panorama musical. rococós, hippies com suas roupas coloridas e o ar impregnado do cheiro de patchuli que era usado pra disfarçar o cheiro de maconha.
    A vida brota sempre
    em eterno ir e vir,
    incessante renascer.
    e reviver

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    1. Ana, não posso me queixar nesse aspecto, é claro. Pela minha idade cronológica, peguei o finzinho de uma Era mágica para a cultura em geral.

      O astral num show de Rock ou MPB nessa época era esse. Todo mundo colorido, aquele aroma de patchouli, mas sobretudo aquela euforia que sentia-se borrifada pelo ar, de que o mundo seria melhorado pela vibração do amor. Ecos hippies que estavam dissipando-se, mas naquela altura ainda não percebíamos que estava no fim.

      Espero sinceramente que tal como no movimento cíclico que você citou ao final de seu comentário, haja uma renascença de tais valores.

      Sonho com o mundo colorido, pleno de paz, amor, arte e beleza, com a fraternidade sendo o mote de tudo.

      Esse reviver que deixou ao final, é nosso fio de esperança !

      Grato por trazer-nos um comentário tão rico !

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