domingo, 8 de junho de 2014

Não contavam com a sua astúcia, Chapolin Colorado também é cultura, e de qualidade!

Alguém aqui já percebeu que além de uma boa fonte de risadas, Chapolin Colorado também é cultura?

Segundo Chespirito: "Tudo começou quando o pessoal da América latina percebeu que seria urgente ter um herói local". 



Diferente do Batman ou do Superman, o Chapolin Colorado não era um herói perfeito. Muito pelo contrário. Ele era baixinho, desastrado, mulherengo, mais atrapalhava do que ajudava as vezes, mas no final da trama tudo se resolvia. E tudo porque ele sentia medo, mas o superava. Não poderia haver um personagem mais a ver com o nosso povo latino americano. Ele nos serve como uma grande lição para nos aceitarmos com nossas imperfeições, as vezes até rir delas, mas nunca deixarmos de seguir em frente.
Posso até dizer que por ser isso tudo que o Chapolin é um herói tão adorável. Porque ele é humano.

Algumas das frases importantes já ditas em seus episódios, que demonstram bastante seu caráter:

"A coragem consiste não em não sentir medo, mas em superá-lo". 

"Aquele que não sente medo não é um valente, mas um irresponsável".

"A união faz a força" 

" Deus salva os bons e os maus, principalmente quando nos ajudamos uns aos outros".

"Apesar de serem delinquentes são humanos"

"A cor da pele não tem nada a ver com maldade"

"Ninguém tem direito de tirar a vida de outro ser humano"

"O Chapolin não abusa dos fracos".


"O Chapolin não aposta dinheiro"

Além dessas grandes lições de vida, aprendemos muito sobre cultura geral: Temos o melhor da literatura, história e cinema mundial.

Roberto Bolaños recebeu o apelido de Chespirito pelo fato de possuir grande aptidão para a escrita. O apelido foi uma adaptação de Shakespeare para o idioma espanhol. Chespirito sempre foi muito original e corajoso como escritor, e nunca se prendeu a clichês. É o que fala em uma entrevista do site www.blogaritmox.com: 

Que escritores influenciaram suas obras?

Chespirito -- Meus amigos me diziam que se você não conhecia 
Kafka ou Joyce, não poderia escrever. Me inteirei que Cervantes 
tampouco tinha lido. É verdade, eu não os li, mas eles também não 
me leram. Os escritores que me influenciaram, me inspiraram desde 
sua redação, até o estilo e conteúdo.

Foi muito corajoso por recriar algumas obras primas mundiais e até parodiá-las, aproximando-as para uma linguagem mais popular, de maneira a desmitificá-las e torná-las mais acessíveis ao povo. Ele contava a história não como foi, mas " como poderia ter sido". Podemos citar algumas das grandes, como Romeu e Julieta, Dom quixote.  Fala sobre personagens da história como Cristóvão Colombo, Chopin, Leonardo Da Vinci, Cleópatra, Nero, Buffalo Bill, e lendas como Fausto e Guilherme Tell. 

Indico a pesquisa de alguns desses personagens que são citados em alguns episódios, dos quais as histórias não caberiam aqui nessa matéria, mas são muito interessantes. Vale a pena procurar saber mais sobre:

Fausto
Guilherme Tell
Chopin
Leonardo da Vinci
O Ovo de Colombo
o alfaiatezinho valente

O alfaiatezinho Valente:

Atenção para a parte final do episódio, onde tem um musical muito legal!

Ele menciona também a ópera lindíssima" Madame Butterfly", parodiada no episódio "O show deve continuar", alguém lembra?


A ópera original é uma história super romântica por sinal, uma das mais bonitas que já vi!





Nesse mesmo episódio, ele cita alguns outros vários clássicos maravilhosos. Faz uma brincadeira com o filme "A Pantera Cor de Rosa", que é uma série de filmes, cujo primeiro foi lançado em 63. Ao invés de fazer uma paródia do filme, ele faz a paródia do personagem do desenho da abertura do filme, o qual também aparece em uma série de desenho animado.






Alguns outros filmes incríveis que são citados nesse episódio são: 


"Allá en el Rancho Grande", filme clássico mexicano de 1936, rodado na época de ouro do cinema mexicano. Sem dúvida é um clássico precioso, onde podemos ver o melhor da dança e música mexicanas, com atores e personagens espetaculares.


O original lindíssimo, recomendo!



Outro clássico imperdível é "A dama das camélias", com Greta Garbo, na minha opinião uma das maiores atrizes do cinema mundial.


O original pode ser visto aqui:

A dama das camélias

Outro filme importante é "O Professor Aloprado", filme com Jerry Lewis, grande comediante que também dirige o filme. Esse clássico talvez seja o filme no qual podemos identificar de forma mais clara como o personagem influenciou a série Chapolin em algumas de suas esquetes e personagens do Carlos Villagrán. (Quico).


O original:

O professor Aloprado

Além de outros filmes, (talvez os maiores do cinema), que a maioria de nós já assistiu, como Cantando na Chuva, os do Charlie Chaplin e O gordo e o magro.

Apesar de encarnar todos esses personagens, Chespirito se ironiza a todo momento, quando por exemplo no trecho onde o personagem de Ramon Valdez diz ser um sacrilégio tocar aquele piano, e ele diz saber que não toca tão bem, quando o que ele queria dizer era que o sacrilégio era não o fato de ele tocar mal, mas de ser o piano no qual Charlie Chaplin teria tocado em um dos seus filmes;


ou quando no final da cena de "Cantando na Chuva", onde ele diz: "Sempre achei que Gene Kelly sabia dançar".


Essa atitude demonstra a sua despretensão em recriar as cenas, o que as torna ainda mais cômicas.

Outro filme clássico citado em um dos episódios é "Cyrano de Bergerac", uma obra lindíssima, talvez a qual ele recriou de forma mais fiel em sua estrutura.

O original: (recomendadíssimo!):




Além dessas referências, ele sempre traz uma visão crítica sobre alguns assuntos, como por exemplo a mídia, críticos de televisão, o movimento feminista, a alta dos preços ou a poluição, ou quando critica os governantes, no episódio "O alfaiatezinhoValente",  onde a cidade onde moram é chamada de "Tontolândia", e o seu rei não era conhecido por ser lá muito inteligente. 



O mesmo acontece no episódio sobre Nero, onde o imperador tinha o costume de fazer poemas terríveis, e mandou incendiar a cidade para inspirá-lo a escrever mais um deles.

Acredito que nesses anos de programa ele tenha falado um pouco sobre tudo, desde as culturas mais antigas, até sobre astronautas e outros planetas, e nos mostra que a humanidade evoluiu muito pouco nesse tempo todo, os problemas são sempre os mesmos.

Em alguns episódios ele fala também sobre alguns aspectos da cultura mexicana, como "Los Idolos" da cultura asteca, e a lenda "La chorona", que conta a história do espírito uma mulher que assombrava a Cidade do México: 

"La Llorona é a mais famosa lenda mexicana. É tão marcante para os naturais deste país que, mesmo descendentes de imigrantes vivendo nos Estados Unidos da América e no Canadá, afirmam ter visto La Llorona nas margens dos rios.

Existem, como no Brasil, várias versões do mesmo mito, porém a mais difundida é a que remonta ao século XVI, quando os moradores da Cidade do México se refugiavam em suas moradias durante a 
noite. Isto se dava, especialmente, com os moradores da antiga Tenochtitlan, que trancavam suas portas e janelas, e todas as noites eram acordados pelos prantos de uma mulher que andava sob o luar, chorando (daí o nome, que significa "A Chorona"). Este fato teria se repetido durante muito tempo.

Aqueles que procuraram averiguar a causa do pranto, durante as noites de lua cheia, disseram que a claridade lhes permitia ver apenas uma espessa neblina rente ao solo e aquilo que parecia-se com uma mulher, vestida de branco com um véu a cobrir o rosto, percorrendo a cidade em todas as direções - sempre se detendo na Plaza Mayor, onde ajoelhava-se voltada para o oriente e, em seguida, levantava-se para continuar sua ronda. Ao chegar às margens do lago Texcoco, desaparecia. Poucos homens se arriscaram a aproximar-se do espectro fantasmagórico - aqueles que o fizeram sofreram com espantosas revelações, ou morreram".

Ele cita também alguns contos infantis em alguns episódios, como pedrinho e o lobo e branca de neve, bela adormecida, e alguns ditos populares. Destaque para o episódio "A Branca de Neve", no qual ele homenageia Walt Disney".



Chapolin tem um pouco de comédia intelectual e bastante física também. Talvez o fato de ser formado em engenharia o tenha ajudado a criar algumas cenas de ação:



Episódio A construção:  A construção 

É quase que incontável a quantidade de cultura de qualidade que Chespirito nos transmite nos episódios, de forma inovadora, brincando com a linguagem, misturando as épocas e referências, criando seu estilo próprio. 

Chespirito é prova de que podemos falar do mais complicado de forma simples, fazer muito com pouco, e que apesar de qualquer dificuldade é possível vencer!

Sigam-nos os bons!!!



4 comentários:

  1. Muito bom, um humor que se identifica com a América Latina, e consegue ser inteligente e fazer uma criança e um a adulto rir do mesmo jeito sem idiotizar nem apelar.

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    1. Exatamente Davi! É isso mesmo que acho interessante e único no trabalho do Chespirito. Obrigada pela participação! Um abraço!

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  2. Surpreendi-me com as citações tanto da literatura, quanto do cinema em suas criações. De fato, nunca tive simpatia por tal comediante, mas reconheço que essa faceta apresentada na matéria, fez com que meu conceito sobre ele, subisse.

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    1. Poxa, fico muito feliz que tenha conseguido isso Luiz, pois foi mesmo o meu objetivo a publicar essa matéria! Um abraço meu amigo!

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