terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Entrevista Com Daniel Cardona Romani, da banda MÓDULO 1000!



Hoje o Limonada Hippie tem o prazer de trazer uma bela entrevista feita com a participação de grandes nomes da música brasileira, e do rock Brasil. Boa viagem musical pra vocês! 

Entrevistadores:
Antonio Pedro Fortuna - Músico, compositor, arranjador. Participou como integrante de bandas como Os Mutantes, Blitz. 
Beto Saroldi - Saxofonista, compositor, arranjador e produtor musical.
Nelio Rodrigues – Escritor e pesquisador musical. Autor de livros “Os Rolling Stones no Brasil”; “ Sexo, Drogas & Rolling Stones”: “Histórias Perdidas do Rock Brasileiro”.

Edição: Claudinha Máris – Fundadora do Grupo Rock do Bom! Made In Brazil.



1) Beto Saroldi: Daniel Cardona Romani, você tem uma formação musical muito sólida em Rock, Música Clássica e Rock Progressivo. Junto aos seus colegas Luiz Paulo Simas, Eduardo Leal e Candinho, fundaram em 1969 o fabuloso grupo Módulo 1000, lançando o fantástico LP “Não Fale Com Paredes”. Eu como bom colecionador de discos e de boa música, tenho o prazer de tê-lo aqui comigo. Fale um pouco desse disco, do processo de criação desse álbum que se tornou um clássico.

R: Beto, quando gravamos o LP “Não Fale Com Paredes” pela Top Tape, estávamos no estágio inicial de compor músicas próprias. Não sabíamos escrever letras elaboradas, pois éramos uma banda que fazia covers e não tínhamos know-how para tratar as composições de uma forma mais esmerada. Mesmo assim, as sessões no estúdio foram prazerosas, e o disco ficou pronto. Ao ouvi-lo, o presidente da Top Tape, Zezinho Rosenblit, reagiu de forma intempestiva, dizendo que o disco era uma merda, que não venderia, e que cairia no esquecimento. Bem, hoje podemos constatar que ele falhou fragorosamente em sua previsão, e ao invés de se envolver com música, deveria ter aberto uma quitanda ou um açougue, porque música não é definitivamente o seu negócio...

2) Nelio Rodrigues: Quando e como você percebeu que sua vida estaria, dali em diante, irremediavelmente atrelada à música?

R: Eu já curtia rock desde menino, quando ouvia o programa Hoje é Dia de Rock, com Jair de Taumaturgo. Mas a certeza de que só poderia ser músico na vida veio quando ouvi pela primeira vez uma banda chamada The Beatles. Aquele som era tudo que eu queria, tudo que eu necessitava para me tornar alguém, e inspirado nesse som, fui construindo a minha vida.
Todos os momentos vividos nesta minha existência, bons ou maus, se devem única e exclusivamente a esta “charming muse”, a música.

3) Beto Saroldi: Daniel Cardona Romani, quais são as suas influências? Quem são os guitarristas que te influenciaram? E tem algum guitarrista da nova geração que você admira e gosta de ouvir?

R: Minhas influências são inúmeras... Quando criança eu vibrava com Little Richard, Bill Haley, Paul Anka, Everly Brothers, e muitos outros artistas, sendo Elvis Presley o foco principal das minhas atenções. Depois vieram os Beatles, que me levaram a escolher a música como profissão. Os Beatles foram o máximo para mim, e na época eu também curtia bandas como Dave Clark Five, The Animals, The Swinging Blue Jeans, The Hollies, Gerry and the Pacemakers, The Kinks, e mais algumas. Nos anos 70, chapei com o rock progressivo de bandas como Yes, Genesis, Pink Floyd, Camel, King Crimson, ELP, Queen, o som de Vangelis e de Jean Michel Jarre, e também o hard-rock de Whitesnake, Deep Purple, Led Zeppelin, o som pesado do Black Sabbath, e outras bandas... Mas a cereja do bolo foi Jimi Hendrix, esse realmente foi demais. Dos anos 80 até hoje, não tive muitas revelações positivas no campo da música, mas posso afirmar que artistas como Steve Vai, Joe Satriani, Steve Morse, Greg Howe, John Petrucci, Joe Bonamassa, Jason Becker, Paul Gilbert, Michael Lee Firkins, Paul Rodgers, Jean Jacques Goldman, Beth Hart, e muitos outros, que não me vem à mente agora, são igualmente influências definitivas. 
Com relação a ser influenciado por guitarristas da nova geração, não me ocorre a lembrança de um nome. Na essência, o meu som é uma “blend” de George Harrison, David Gilmour, Andy Latimer, Jimmy Page, e mais alguns guitarristas, mas em menor escala. Ouço constantemente guitarristas bem mais novos, entretanto não desenvolvi uma apreciação diferenciada por nenhum deles.

4) Antonio Pedro Fortuna: Daniel, você teve a oportunidade de se apresentar com sua banda no lendário e super importante Festival Internacional da Canção, que a Globo promovia com imenso sucesso na virada dos anos 60/70, e que revelou uma grande quantidade de talentos. Na época eu era apenas um espectador, e consumia avidamente aquelas novidades, especialmente as bandas de rock, que já eram a minha preferência. Como foi participar daquele momento tão pioneiro e inovador da nossa música? Você acredita que a volta desse tipo de evento seria importante para nossa música e cultura?

R: A nossa participação no V Festival Internacional da Canção significou um marco na história do MÓDULO 1000. Acostumados com a lotação usual dos teatros onde fazíamos os nossos concertos, nos deparamos com milhares de pessoas olhando para nós num Maracanãzinho completamente lotado. Uma vez li que havia 30.000 pessoas presentes naquele dia. E em função dessa exposição, a banda marcou presença em revistas importantes da época, como O Cruzeiro e a Manchete, além de outras como Intervalo, Amiga, etc... Jornais como O Globo e o Jornal do Brasil, e outros mais, fizeram várias entrevistas conosco promovendo a banda ainda mais. Fomos contratados no Rio e em São Paulo, e a música que tocamos no V Festival Internacional da Canção foi incluída no LP que trazia a música vencedora, BR-3, com Tony Tornado. Aparições em emissoras de TV contribuíram e muito para a disseminação do nome MÓDULO 1000. Logo, a nossa presença no V Festival Internacional da Canção nos propiciou um retorno que não esperávamos. 
Quanto ao retorno dos festivais, vejo isso com bons olhos, pois poderiam revelar novos valores, além de trazer propostas frescas para a nossa música e nossa cultura. Estamos precisando disso...

5) Nelio Rodrigues: O que o levou a descobrir que a guitarra seria o seu instrumento?

R: Quando eu ouvia as bandas da época, a minha atenção se voltava sempre para os solos, eles soavam para mim como uma música dentro de outra, embelezavam as composições, era como se a guitarra também cantasse. Foi uma escolha acertada e inquestionável.

6) Nelio Rodrigues: A busca por uma assinatura sonora peculiar, distinta, única, garantia ao MÓDULO 1000 um nicho exclusivo. Esse distanciamento do som pop, de fácil assimilação, era proposital?

R: Eu sempre tive dificuldade em digerir um som mais pop. Quando comecei a tocar, eu defendia, por exemplo, a ideia de tocar Hang On Sloopy em sua versão original, com The McCoys, e refutava de pronto a possibilidade de tocá-la na sua versão doméstica, Pobre Menina. Mais tarde tive problemas com a inclusão de músicas de MPB no repertório. Mas essa era ainda uma fase de bailes do Código 20, banda anterior ao MÓDULO 1000. Então, o distanciamento de um som com característica pop era, sem sombra de dúvida, proposital.

7) Nelio Rodrigues: Que artistas (ou bandas) mais o influenciaram na época em que você formou o primeiro grupo?

R: O meu primeiro grupo, Os Quem, cujo nome foi certamente inspirado na banda britânica The Who, tocava covers dos Beatles, Animals, McCoys, Rolling Stones, e outras bandas da época. É difícil lembrar do repertório dessa fase, mas talvez músicas como World Without Love (Peter & Gordon) e Hippy Hippy Shake (The Swinging Blue Jeans) também fizessem parte da lista. As bandas citadas exerceram grande influência em mim, e havia muitas outras que não constavam no repertório, mas foram influentes da mesma forma.

8) Nelio Rodrigues: Viver de rock no Brasil naquela época não era nada fácil, sobretudo atuando numa banda que não costumava fazer concessões, como o MÓDULO 1000. De onde vinha o combustível que alimentava o ato heróico de ser roqueiro e de viver de rock no Brasil?

R: O combustível que alimentava o ato heróico de ser roqueiro e de viver de rock no Brasil vinha de nossas almas, as almas dos músicos do MÓDULO 1000, assim como as almas dos músicos de outras grandes bandas, como Os Mutantes, Som Imaginário, A Bolha, O Terço, e outras do mesmo período. Nenhum de nós teve um único minuto de dúvida quanto ao “ato heróico” de ser músico de rock e viver de acordo com o que o rock nos daria. A nossa identificação com essa forma de expressão cultural era tão forte que não nos preocupávamos com o futuro. O que importava era tocar, quanto. Foi para isso que todos nós fomos feitos.

9) Antonio Pedro Fortuna: Como se deu a sua saída da banda MÓDULO 1000, ou como aconteceu o final da banda? Lembro que fui levado pelo baterista Rui Motta para integrar a banda Veludo Elétrico, que tinha acabado de perder o baixista Fernando Gamma, que foi tocar com vocês. Quanto tempo a banda durou depois disso? 
Lembro que todos moravam num sobrado, em uma ladeira no bairro de Santa Teresa (RJ).

R: Bem, eu saí do MÓDULO 1000 por questões pessoais, achei que seria melhor me ausentar. Com a minha saída e a do Eduardo Leal, a banda deixou de existir, e então Luiz Paulo Simas e Candinho se uniram ao Fernando Gamma e ao Lulu Santos para formarem o Vímana. Eu não sei quanto tempo o Vímana durou, pois deixei de ter contato com eles. Mas sei que não durou muito. Também não tenho conhecimento desse sobrado onde eles moraram em Santa Teresa, pois como disse anteriormente, eu me desliguei do processo para tratar da minha própria carreira.

10) Nelio Rodrigues: O disco “Não Fale Com Paredes” teve algumas reedições no exterior, sendo cultuado por colecionadores de todas as partes do mundo. Olhando em retrospecto, que importância você atribui ao legado do MÓDULO 1000?

R: Vejo o legado do MÓDULO 1000 como um exemplo de tenacidade, um exemplo de como se pode concretizar sonhos mesmo remando contra a maré. 
Mesmo combatidos por uma sociedade conservadora, observados de perto por um regime ditatorial, desprezados por nossa própria gravadora, inviabilizados pela ausência de canais que pudessem disseminar o nosso trabalho, lutando contra tudo e contra todos, o MÓDULO 1000 realizou o seu projeto, o LP Não Fale Com Paredes, um disco que é hoje cobiçado por colecionadores do mundo todo.
A importância do legado é essa, devemos insistir, lutar ao máximo pelos nossos ideais, e jamais considerar a possibilidade de rendição.

11) Beto Saroldi: Todos sabem que Neil Young é um crítico ácido em relação ao som do MP3, que realmente na minha opinião é bem comprimido e perde muita qualidade, se comparado ao som do CD e ao LP que Neil Young defende tanto. Em recente entrevista, o líder do Roxy Music, o compositor e produtor Brian Eno, não só discorda de Neil Young, como vai mais longe nessa discussão , e coloca uma boa dose de pimenta, dizendo que está lançando o aplicativo “Scape” para celulares, tablets e gadgets, que poderá, segundo Eno, substituir o CD e o MP3.
Que o mundo da música está mudando numa velocidade impressionante, ninguém duvida, mas o que você pensa a respeito disso tudo?

R: Particularmente, eu me alinho com o pensamento de Neil Young. O som do MP3 é notoriamente comprimido e sem qualidade, isto para nós que podemos discernir corretamente. A garotada aceita qualquer coisa, não tem parâmetros de comparação, não se interessam por qualidade, só visam praticidade. Não existe ouvir música no celular, mas meus alunos acham que é exagero meu, e aceitam aquele som com chiado!
Quanto a Brian Eno, ele está puxando a brasa para a sua sardinha, pois sabe muito bem que há uma diferença abissal entre um som de qualidade e um som do MP3. Duvido que esse “Scape” que ele está lançando possa vir a ser melhor do que um som de extrema qualidade. Sabe como é, o dinheiro não é tudo na vida, é só 100%...

12) Beto Saroldi: Como andam as suas atividades na música, Daniel? Você tem planos de lançar algum trabalho autoral?

R: As atividades no campo da música vão bem. Estamos finalizando o CD/LP “The Four Walls”, que está sendo gravado aqui pelo selo Editio Princeps, e será distribuído na Europa, Ásia e Estados Unidos pela Cherry Red Records, gravadora inglesa com a qual temos contrato. Também estou compondo o repertório para um outro projeto, “Wooden Passion”, um trabalho mais acústico e menos elétrico. Existe ainda um projeto que visa reunir músicos de bandas consagradas com o intuito de gravar um material que possa ser postado no You Tube e em redes sociais voltadas para a música.
O primeiro grupo reúne Carlos Gaertner (A Chave), Zé Brasil e Silvia Helena (Apokalypsis), Fernando Bustamante (maestro, produtor e arranjador), e eu (MÓDULO 1000). E já existe uma projeção para o próximo grupo...

13) Antonio Pedro Fortuna: O que você tem feito atualmente e quais os seus planos para o futuro próximo?

R: O meu objetivo mais imediato é a conclusão do CD/LP “The Four Walls”, que está quase concluído, e depois vou divulgá-lo por meios de shows e festivais. Paralelamente, vou gravando as composições do projeto “Wooden Passion”, que será lançado posteriormente ao “The Four Walls”. Em adição a isto tudo, planejo gravar com vários outros músicos, como estou fazendo agora, num projeto que visa reunir componentes de bandas diferentes numa única gravação, que por sua vez irá para para o You Tube e redes sociais, objetivando movimentar o mercado e, ao mesmo tempo, criar um fato novo para os seguidores dessas bandas.
A música não pode parar.

14) Beto Saroldi: E para terminar, e não é bem uma pergunta, mas com a admiração que eu tenho por você como grande figura humana, e extraordinário músico que você é, eu peço a Deus que me ilumine para que eu possa encontrar com você em meu Studio, o “Saroldi Digital Studio”, para que façamos alguma coisa juntos. Tenho certeza de que quando isso puder acontecer e nossas agendas permitirem, sairá muito boa música, e os fãs nos agradecerão.
Fica aqui o meu abraço a você, com desejo de muito boa sorte e sucesso!!!

R: Bem, vou aproveitar suas palavras para colocá-lo contra a parede... rsrsrsrs... Como tenho grande admiração por você como pessoa e como músico, aceito de imediato o convite para desenvolvermos um som no seu estúdio, e podemos convidar mais dois ou três amigos para que a festa seja completa. A ideia se encaixaria perfeitamente no projeto que citei anteriormente, que trata de reunir músicos de bandas de nome para a criação de um som conjunto. Com certeza os fãs destas bandas gostarão do trabalho e agradecerão.
Um grande abraço, muita luz, muito sucesso, é o que desejo a você, meu amigo Beto Saroldi.



4 comentários:

  1. Carreira longa e brilhante de um artista que o mundo precisa conhecer. O Modulo 1000 rompeu uma vez essa barreira entre o underground e a mass media. Nosso Movimento 70 de nOVO ("o udigrudi do udigrudi" como costumo tratá-lo), oriundo do mundo virtual, começa a despontar na grande mídia impressa, radiofônica e televisiva. Minha música "Nave Errante" que está sendo produzida online pelo Daniel Cardona no Rio, Carlão Gaertner em Curitba e Fernando Bustamante em São Paulo, já soou no mundo real na primeira grande Celebração do nosso Movimento! E foi no SESC, um dos umbrais (portais?) que conectam o underground à superfície (hehehe). Sinal dos Tempos? "Pra Swingar" do Som Nosso de Cad Dia, gravada nos anos 70, foi tema da série Subúrbia da Rede Globo...É o nosso Rock Setentista, um "novo" referencial quarentão agregado ao que a moçada está acostumada a conhecer e chamar de Rock Brasileiro. Tamo junto!

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  2. Simplesmente sensacional a entrevista do mestre Daniel Cardona Romani !!

    Gostei muito dos esclarecimentos esmiuçados, que certamente são um tesouro para a preservação da memória do Rock brasileiro.

    Parabéns novamente ao Blog Limonada Hippie, um baluarte nesse processo cultural rico.

    Com o LH em ação, não falamos com as paredes...

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  3. Luiz Domingues por aqui? que foda.. Você é um super baixista...Adoro seu trabalho com A Chave do Sol..Vocês são muito talentosos..Como seria divino se o power trio voltasse a se juntar ...

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