terça-feira, 9 de outubro de 2012

O 1o.Festival de Águas Claras Segundo Amarilis* (1975)




          
                             
  
Hoje, trazemos um incrível relato sobre o festival que ficou apelidado como "o woodstock brasileiro": O primeiro Festival de Águas Claras. Viaje nessa história, que marcou a vida de muitos brasileiros de maneira muito positiva, e digamos, até magica... 
                                
 O 1o.Festival de Águas Claras Segundo Amarilis*

Tudo começou em meados de 1974 num papo à mesa de jantar na casa do Leivinha, ele "viajava" na idéia de fazer uma festa na fazenda de seu pai, o saudoso "seu" Toninho, conhecida na região de Iacanga como "Sta. Virgínia", em homenagem à avó do Leivinha, e de sua irmã Virgínia Márcia, minha querida amiga. 

O que germinou como um encontro para os trabalhadores da fazenda e o pessoal da região, algo assim como baile com muita música pra dançar e churrasco à vontade, em poucos meses tomou dimensões woodstoquianas, e o "baile" se tornou o "Festival de Águas Claras". Como outro “membro” da família Checchin (eu passava mais tempo na casa deles do que em minha própria casa), fiz de tudo um pouco na produção: fui atrás das bandas, ajudei a pintar faixas de rua, vendi ingressos antecipados aqui e acolá, mandei bala na divulgação, enfim, pintei & bordei naqueles dias, como mandava meu próprio figurino... 

Uma semana antes da abertura dos portões da fazenda, fomos resolutos pra lá e tentamos ultimar alguns detalhes que faltavam, que na verdade jamais terminavam de aparecer. "Será que vai vir alguém?", começamos a pensar entre nós, e na dúvida, ficamos sem dormir uns dias antes, pra não perder nada do que poderia acontecer... foi quando vimos os primeiros peregrinos chegando, rumo à Festa Prometida. Bem, foi aí que a ficha finalmente caiu, e logo as estradas principais e radiais estavam atulhadas de carros e todo o tipo de material humano. É, agora não dá pra voltar atrás, falávamos emocionados (e aterrorizados) com a evolução das coisas. 


Na 6a. feira à tarde a primeira banda a se apresentar foi a moçada da Orquestra Azul, e na madrugada da 2a. feira, se me lembro bem, o último show foi o do Terço, cuja tarefa hercúlea de encerrar uma maratona daquele naipe, foi muito bem desempenhada mostrando quem é bom faz ao vivo. 



Entre a primeira e a última banda, como esquecer o exótico buffet vegetariano do Antonio Peticov que alimentou nosso corpo e nossa alma; do big temporal que alguém vaticinou que ia, mas não foi; das peripécias do Arnaldo Baptista pela fazenda e sua antológica apresentação com a Patrulha do Espaço... sentado na platéia; da elegância do Terreno Baldio e dos charmosos arranjos do Moto Perpétuo; dos contagiantes Jazzco, Apokalypsis e Rock da Mortalha; da farra do Som Nosso de Cada Dia (alô alô Pedrinho Batera, onde quer que você esteja); dos times musicais Burmah, Mitra, Dan Rockabilly, Tony Osanah, Cogumelo (a banda) e tantas outras pérolas que subiram naquele histórico tablado. 



Depois de três dias de paz, amor & rock 'n' roll, tudo estava terminando como havia começado, ainda sem dormir e vários quilos a menos, nos reunimos na cozinha da fazenda para tomar um café e ali ficarmos, quietos, serenos, como templários satisfeitos com a descoberta do nosso Santo Graal particular. Olhei em volta e notei que se o Leivinha naquele momento, com as suas longas melenas e seu semblante crístico, começasse à elocubrar algo sobre outro festival, inapelavelmente nos levantaríamos e começaríamos tudo outra vez... bem, foi exatamente isso que fizemos em 81.

*Amarilis por Luiz Domingues:  


Amarilis Gibeli é uma típica garota que amou os Beatles e os Rolling Stones e detestava a ideia de que haviam guerras no mundo.

Garota dos anos sessenta, com flores no cabelo e um monte de sonhos bonitos de fraternidade e compartilhamento gentil, sem as mesquinharias típicas do mundo cinzento dos caretas.

Viveu intensamente a Era da quebra de paradigmas comportamentais, nutrindo-se daqueles ideais de paz e amor, proporcionados pelos sons.

Ah...os sons...

Como havia magia naqueles artistas malucos que os criavam com a liberdade dos cabelos ao vento, sem lenço, nem documento e só comprometidos com o sonho de um mundo melhor...

E a menina cresceu e mergulhou no mundo da música, indo trabalhar dentro do sonho, envolvida de corpo e alma nesse mundo mágico.

Já faz um tempo, aderiu à modernidade do mundo digital, onde ser astronauta libertário não é mais um exercício futurístico e sim a realidade do cotidiano.

E eis que cria uma rádio que espalha a magia de novo, mostrando aos jovens do III Milênio, que o sonho não acaba jamais..




4 comentários:

  1. Só histótia bacana, herois e heroinas construindo mundo melhor!
    Materia ficou 10!

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  2. Sensacional !!

    O Blog Limonada Hippie está de parabéns por trazer um depoimento de uma testemunha ocular, aliás, mais que isso, Amarilis Gibeli trabalhou na produção do evento, portanto tem lembranças muito vívidas sobre o projeto todo.

    E gostei muito do estilo da narrativa, imprimindo uma boa dose de emoção, que nos fez viajar no tempo e no espaço, fazendo com que sentíssemos a vibe do festival.

    Talento de romancista, que faz o leitor entrar dentro da estória. E nesse caso, história com "H" !

    Parabéns !!

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  3. Pirassununga SP ano 1975 é de manhã (Perdi a 1ª aula)
    Vcs estão sabendo q no poximo final de semana vai rolar tres dias de rock and roll, numa fazenda aqui perto, cara foi uma loucura, lembro que ara 3:00 da madruga e estavamos na maior expectativa, ansiedade e outras "cozitas" a mais
    É EU FUI ! E lendo esse texto, dos bastidores de como tudo começou só posso agradecer os momentos q vivi naqueles dias (OBRIGADO "SEU" TONINHO), A Vcs do Limonada Hippie que me fez emocionar Valeu !

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