terça-feira, 2 de outubro de 2012

Máquina do tempo - Revista Música

Qual músico ou aspirante  a músico nunca pegou uma revista de cifras para tentar tirar as músicas de seus ídolos, ou não teve a curiosidade de pegar uma revista do estilo Guitar Player para ver as últimas novidades em instrumentos e equipamentos musicais? Luiz Domingues nos conta neste texto abaixo sobre as revistas precursoras desse estilo que fez parte da nossa adolescência, e que até os dias de hoje são usadas em versões on line. Como aconteceu com o Luiz, também tive um professor de violão que só queria ensinar as músicas que ele gostava, as vezes difíceis de acompanhar, e que na época eu achava antiquadas, veja só, eram simplesmente músicas dos Mutantes! Talvez fosse muito nova para entender na época! hehe... Boa viagem na máquina do tempo, e fiquem com Deus!
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    Uma pequena editora sediada na zona oeste da cidade de São Paulo e ligada à um conservatório musical, editava uma revista muito popular nos anos setenta, chamada "Violão & Guitarra".
 
Apelidada de "Vigu", era sucesso entre estudantes de violão e guitarra iniciantes, pois a sua base editorial era a publicação de letras de músicas do Hit Parade, com a respectiva harmonia musical super simplificada através de cifras e indicações de como montar os acordes, com o desenho dos dedos nos trastes do instrumento.
 
Apesar das críticas de muitos músicos por considerarem as harmonias propostas equivocadas, o fato é que muita gente aprendeu o be-a-bá da digitação ao violão/guitarra, consultando tal publicação.
 
Avançando como escola de música e animados com o mercado editorial que apresentava publicações como a Revista "POP" e a "Rock, a História e a Glória" nas bancas, lançaram então, em 1976 , a revista "Música".
 
A proposta editorial tinha seus diferenciais em relação à concorrência, todavia.
 
Se na "Rock", o texto tinha conteúdo contracultural, acrescido de muita paixão pela música e Rock em específico e na "POP", o fator comportamental da juventude classe média era o mote, na revista "Música", a ênfase era um texto mais rebuscado e preocupado em mostrar aspectos técnicos, tanto tecnológicos em relação à instrumentos e equipamentos, quanto à parte didática de explicar a performance de músicos famosos.
 
Mesmo sendo impressa em preto e branco, a "Música", tinha uma boa diagramação e ilustrações.
 
E seguindo mais a linha do jornal anexo da "Rock" (Jornal de Música) e o encarte da "POP" (Hit Parade), era aberta à muitas vertentes da música, embora o Rock, incluso os seus representantes brasileiros, tinha farta cobertura por estar num momento ainda em alta no mercado daquela época.
 
Os pontos mais positivos ficavam por conta da cobertura de shows ao vivo e resenhas de discos, mesmo levando-se em conta que seus articulistas eram mais exigentes do que seus colegas de outras publicações.
 
A meu ver, esse grau de perfeccionismo se dava por conta da valorização do aspecto didático, que era a especialidade da casa, visto que a publicação era o braço jornalístico de uma escola de música e dessa forma, precisavam mostrar serviço nas análises mais profundas.
 
Havia quem não gostasse de tanto rigor e mesmo particularmente preferindo a escrita da "Rock", bem mais leve e "cool", essa formalidade de professor de música não me incomodava e eu achava e ainda acho, que uma visão paralela e diferente, só enriquece o manancial de informações sobre um mesmo assunto.
 
Seguindo nessa linha, a "Música" dava muitas notas sobre instrumentos e equipamentos, citando até cotação de preços no mercado de São Paulo e Rio de Janeiro; matérias técnicas falando sobre testes tecnológicos etc.
 
E claro, havia o aspecto didático também, onde aproveitando o Know-how adquirido com a popular "Vigu", publicava-se igualmente cifras e letras de
músicas de sucesso, só que mais selecionadas, priorizando Rock e MPB de qualidade, principalmente.
 
Uma edição muito comentada foi a que trouxe uma matéria muito boa com George Harrison em 1979, quando o ex-Beatle veio ao Brasil quase secretamente para assistir o GP de Fórmula 1 em Interlagos. O boato espalhou-se apesar dele estar incógnito praticamente e a "Música" foi atrás, como um dos poucos veículos que percebeu esse visitante ilustre respirando o ar tupiniquim, além de uma entrevista para o programa "Fantástico", da Rede Globo, que ele concedeu e alvoroçou os fãs.
 
A revista foi perdendo o fôlego e já não conseguia enfrentar sua maior concorrente no final da década de setenta e início de oitenta, a "Som Três". Com mais estrutura, a "Som Três" prevaleceu e a "Música" fechou as portas em 1983.
 
A pequena "Editora Imprima", mesmo fragilizada financeiramente, persistiu ainda um pouco mais ao lançar outras publicações nos anos oitenta, como "Rock Stars" e "Rock Passion", mas que também sucumbiram, infelizmente.
 
Em seus anos mais profícuos na década de setenta, a "Música" teve suas matérias assinadas por jornalistas de qualidade, como Nico Pereira de Queirós e Rafael Varella Júnior entre outros.
 
Matérias técnicas eram assinadas por convidados. Geralmente músicos e técnicos gabaritados. Gente como Tony Osanah, Claudio Lucci, Nelson Ayres, Egydio Conde e maestros como Fausto de Paschoal e Ettore Pescatore, por exemplo. 
 
Os editores eram os irmãos Victor Biancardi e Oswaldo Biancardi Sobrinho, também donos do "Grupo AMA", uma escola de música que vendia a ideia de ter uma concepção didática moderna, embora fosse apenas repaginada de um conservatório musical tradicional, fundado pelo pai deles, o velho Biancardi.
 
Eu mesmo tive uma passagem rápida pelo Grupo AMA, estudando por alguns meses de 1977. Meu professor era bom, baixista de uma banda de baile famosa na época (Phobus), mas sua didática não me cativou. As únicas coisas bacanas nas aulas dele eram : 1) Ele usava o baixo dele e eu mais "babava" do que focava nos exercícios, com aquele espetacular Fender Jazz Bass sunburst, igual ao do John Paul Jones...e 2) Ele estava obcecado pelo novo álbum do Stevie Wonder à época e só queria ensinar as músicas do LP "Songs in the Key of Life", que era (é !!) demais. Uma pena que eu fosse um mero principiante e não acompanhasse como gostaria... 
 
A Revista "Música" foi uma boa publicação naquela metade para o final da década de setenta e certamente contribuiu bastante naquele período.


18 comentários:

  1. Nossa deu vontade de estar na minha casa pra fuçar minhas revistas MUSICA que usei inclusive para fazer programas na rádio e também me lembrei do meu professor de música da minha longa carreira de 6 meses quando eu estava aprendendo a tocar craviola de 12 cordas eu mais babava no meu professor Ney Marques que tocava tudo de corda guita, violão, bandolim, cavaquinho etc...Depois que eu ver minhas revistas eu volto a escrever...

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    1. Fico aguardando o próximo comentário, será um complemento de rica importância, tenho certeza! Obrigada!

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    2. Que sensacional você ter ainda guardados exemplares da revista "Música". Naturalmente hoje são valiosos.

      Sem dúvida que lhe serviu de base para sua atuação radiofônica, posso imaginar.

      E que legal essa lembrança de suas aulas de música.

      E como a editora do LH disse acima, faço côro : Também fico no aguardo de mais comentários seus.

      Obrigado!

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    3. Bom dia, eu também tenho vários exemplares da revista. oportunamente posso escanear as capas e divulgar, já que estou fazendo um levantamento, mas só achei este comentário e mais nada. no mercado livre não encontrei para comprar.

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    4. A Revista Música também informava sobre os Festivais - local e data de inscrição e posteriormente, o resultado, a classificação.

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  2. As atividades de Zé Brasil & Silvelena sempre receberam destaque na Revista Música, assim como a Revista POP publicou ótimas matérias como Apokalypsis. Hoje existe a Poeira Zine que começou como fanzine e tornou-se uma reivsta respeitada pelos músicos e simpatizantes do rock. Mas ainda acho que falta aquela publicação mais underground, o oposto da Rolling Stone e da Bizz por exemplo, que seja mais visceral, radical e polêmica. E que fuçe nossa marginália, nossos malditos, nosso rock alternativo de verdade. Como alegre e veterano representante do nosso üdigrudi do udigrudi" conclamo os blogueiros, que exercem essa função rebelde e contestatória na Internet, a publicar no mundo real(?) também. Vamos à luta!

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    1. Ótima idéia Zé Brasil! Vou pensar sobre com cuidado! bjão e obrigada pelo comentário!

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    2. Verdade, o Apokalypsis e outras tantas bandas setentistas sempre tiveram espaço generoso nas páginas da "Música".

      Sou suspeito para falar do Poeira Zine, pois o conheço desde o número inaugural. Tenho a coleção completa e a considero a melhor revista de Rock vintage do Brasil. Sua escrita é muito parecida com a da saudosa "Rock, a História e a Glória" e indo além, as matérias são ainda mais aprofundadas, pois na "Rock", eles não iam tão a fundo.

      Dou total razão ao Zé Brasil ! Publicações como a Rolling Stone moderna e a Bizz, são execráveis pela diluição.

      Falta o aspecto contracultural que tínhamos de montão nas décadas de 60 e 70.

      A internet é o caminho e a página "70 de Novo" uma das ferramentas. O Blog Limonada Hippie, é outro elemento e assim prosseguimos, nos unindo nessa resistência cultural mais do que necessária.

      Obrigado por ler e comentar, Zé Brasil !

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  3. Eu tenho VÁRIAS, Luiz. Guardei os meus VIGUS e Revistas Música. Que falta elas fazem... Como aprendi e me sintonizei com essas rvistas. Minhas filhas ainda se baseiam nas cifras delas. Beijos

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    1. Cláudia :

      Que legal saber que ainda tem guardados exemplares tanto da revista "Música", quanto as "Vigu's".

      Saiba que hoje em dia, esse material tem um valor comercial significativo pelo distanciamento temporal e nos "mercados livres" por aí, vale um boa nota.

      Sim, essas publicações ajudaram várias pessoas a dar os primeiros passos no violão, principalmente.

      Obrigado por ler e comentar !

      Beijos !

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  4. Também fui estudar piano no Grupo AMA só por conta das revistas VIGU e Música. Tive duas professoras, uma mais ou menos. A segunda professora foi sensacional, mas quando nasceu minha primeira filha tive que parar e nunca mais voltei. Noutro dia o Filó Machado esteve aqui em casa, bem em uma tarde que eu estava arrumando minhas revistas antigas e mostrei a ele uma matéria sobre ele. Ele ficou super emocionado de rever... Eu seguia as dicas de CD, conheci Gismonti na revista música... Fico por aqui. Abraços

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    1. Cláudia :

      Que legal saber que estudou no grupo AMA, também. E como toda escola de música, mesmo esforçando-se para tirar o ranço de "conservatório" com o peso de uma didática ultrapassada, o AMA tinha professores bons e alguns que deixavam a desejar.

      Incrível ter mostrado ao Filó uma dessas revistas com uma reportagem sobre ele. Um material desses, só reforça o portfolio de um artista.

      Assisti um show do Filó em 1983, numa danceteria em Santos, chamada "Heavy-Metal". Era um ex-cinema que foi transformado em casa de shows, portanto com uma estrutura semelhante à de um teatro, com palco grande. Ficava na avenida da Praia do Gonzaga. Não era um ambiente propício para ele e sua música intimista de banquinho e violão, mas foi muito legal.

      E que legal que através da revista "Música", conheceu o Egberto Gismonti. Só por esse fato, a publicação deu mostras de que valia a pena ser lida.

      Beijo e obrigado por ler e comentar !

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  5. Muito bom , Luiz! Ótima reportagem! bj

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  6. Gostei muito da matéria. Eu também possuo muitas revistas Vigu e Música, que colecionei e estudei ao longo dos anos 70 e 80. Há muito tempo eu venho pesquisando sobre a Editora Imprima e não conseguia nenhuma informação. Como foi falado na matéria, a Revista Música trazia reportagens, entrevistas, letras cifradas, dicas técnicas, e, nas primeiras edições, trazia lista de preços de instrumentos e equipamentos. Gostaria de lembrar que a Editora Imprima publicou o "Manual Prático de Violão e Guitarra", que foi fundamental para o meu aprendizado de violão. A partir desse Método, eu comecei a entender cifras de forma mais aprofundada.
    Parabéns pela matéria.
    Eu comecei a aprender violão a partir de 1975, e continuo tocando e aprendendo.
    Grande abraço. Luiz Eduardo

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    1. Essa matéria deu saudade! Passando por aqui dei de cara com essa maravilha de assunto que é a Revista do VIGU, o VIGU me ajudou muito no que faço atualmente, sou músico da noite e estou a procura de uma contracapa me parece que é da revista nº 6, onde vinha um monte de acordes desenhados (um Minidicionário) caso alguém consiga me ajudar pode ser até a imagem dos acordes ficarei muito grato!

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