terça-feira, 31 de julho de 2012

Revista Pop

Hoje Luiz Domingues traz uma ótima matéria sobre a revista Pop, que apesar de falar sobre grandes nomes da música da década de 70, já tinha um formato mais próximo das revistas que temos nos dias de hoje. Boa leitura, e descubra, ou relembre mais essa relíquia brasileira!


Ao contrário de outras publicações inspiradas em preceitos contraculturais acentuados, a revista "Pop", editada pela Editora Abril Cultural, adotou desde o início, um outro rumo.
 
Muito mais inspirado no modelo norte-americano pró-establishment, centrou suas baterias no modelo do jovem classe média e preocupado com moda, comportamento, escolha de carreira, dúvidas sobre sexo, questões escolares e afins.
 
De uma certa maneira, pode-se dizer que a "Pop" antecipou em quatro décadas, o universo jovem que a Globo retrata em sua novela permanente, "Malhação".
 
Mas, como foi criada no início dos anos setenta, mesmo não tendo o melhor enfoque, estava numa época sensacional sob o aspecto artístico/cultural e dessa forma, quando o assunto era arte e sobretudo, música, era praticamente impossível não falar de coisas boas, seja no Rock, na MPB, Black Music ou qualquer outra vertente da época.
 
Com o respaldo de uma editora forte, tinha no acabamento gráfico, um trunfo e tanto. Mas mesmo não tendo no texto a profundidade e sobretudo a paixão que sobravam na "Rolling Stone" brasileira e na revista "Rock, a História e a Glória" , não posso de forma alguma dizer que era um texto pobre, pois grandes jornalistas passaram por sua redação. 
 
Digamos que a linha editorial mais "soft", era uma escolha da casa.
 
De fato, a editora Abril era uma empresa que seguia a linha de pensamento editorial dos grandes trusts americanos. E portanto, a visão de juventude seguia esse padrão de "american-way-of-life".
Isso refletiu-se na revista "Pop" de forma incisiva, pois em sua existência entre 1972 e 1979, a revista não falou uma só palavra sobre política. Só no seu final em 1979, mencionou a questão da anistia, ainda assim, de forma discretíssima.
 
Mas nos anos de chumbo, a "Pop" não dava uma linha sobre o assunto, preferindo seguir num mundo jovem alienado e preocupado com questões juvenis como sexo, educação, moda etc.
 
Mas calma, leitor ! Claro que a "Pop" teve seus méritos !
 
Como já disse, a época era a mais favorável possível para se falar de música. Os maiores nomes do Rock, MPB, Folk e Black Music foram enfocados.
 
Com profusão de fotos e lay-out moderno aos padrões setentistas, a "Pop" de certa forma era a nossa "Circus", uma revista americana rica em ilustrações e com um enfoque do Rock na linha de revistas de cinema de celebridades, mais focando nas fofocas de bastidores.
 
Enquanto na "Rolling Stone" brasileira ou na "Rock, a História e a Glória", poderiam sair entrevistas com Bob Dylan ou Mick Jagger falando coisas bombásticas, certamente na "Pop", o enfoque era a última festa de arromba na mansão de Rod Stewart, onde Elton John e Keith Moon entraram de Rolls Royce dentro da piscina...
 
Mas haviam matérias bacanas também, pois como já disse, o staff era de primeira, com jornalistas como Leon Cakoff, Pink Wainer, Caco Barcellos, Okky de Souza, Ana Maria Baiana, Maurício Valladares, José Emilio Rondeau, Ezequiel Neves entre outros.
 
Uma coluna assinada por um jornalista misterioso, marcou época nessa revista. Era a coluna denominda "Pergunte ao Guru". Ele respondia cartas com questões de diferentes motivações e que iam do Rock aos tabus do sexo. Com uma boa dose de ironia e usando as gírias da época, era diversão garantida. Hoje em dia, a coluna "Pergunte ao Guru" está revivida nas páginas da Revista Poeira Zine. Eu desconfio qual seja a verdadeira identidade do "Guru". Trata-se de um velho e bom jornalista Rocker, mas não vou revelar sua identidade, evidentemente.
 
Eu gostava muito das reportagens sobre bastidores do cinema. Antecipando lançamentos, a "Pop" soltava matérias sobre a pré-produção de filmes transados, com fotos incríveis do making off, entrevistas com o diretor, atores e produtores. Foi nas páginas da "Pop" que soube que filmes como "Jesus Christ Superstar", "Godspell", "The Rocky Horror Show", "The Phantom of the Paradise" "The Wiz", "Tommy" e "Lisztomania" entre outros, estavam sendo produzidos, o que me deixava com água-na-boca. Certamente tinha o dedo do saudoso Leon Cakoff, cinéfilo de carteirinha que criou a hoje consagrada "Mostra internacional de Cinema de São Paulo", ainda nos anos setenta.
 
Há de se destacar também, os famosos posters. Seguindo a linha de revistas de celebridades americanas, os posters da "Pop" também marcaram época. Alice Cooper, Chico Buarque, Secos e Molhados, Genesis, Yes, Led Zeppelin...
 
Mas os mais emblemáticos mesmo foram o do Roger Daltrey num still do filme "Tommy" e o de Rick Wakeman, promocional dos shows que fez no Brasil em 1975. Quem não pendurou na parede do quarto, o personagem "Tommy" dentro de uma cápsula enorme, martirizado como um santo ? E a mesma coisa em relação ao Rick Wakeman, com aquela capa megalomaníaca de lantejoulas...
 
E muitas vezes, a "Pop" usou de um recurso promocional muito tentador para alavancar vendas. Compactos simples, com duas canções vinham encartados vez por outra. Eu mesmo tive um que continha as músicas "Como Vovó já Dizia", do Raul Seixas e "Postcard", do The Who, que ouvi até furar a agulha da vitrola.
 
O jornal que vinha incluso, chamava-se "Hit Pop" e ali, tal como no "Jornal de Música" que vinha encartado na revista "Rock, a História e a Glória", haviam boas informações, embora também aí, a linha mais superficial se observava, dando mais ênfase aos indicativos de discos mais vendidos e músicas mais executadas em rádios, por exemplo.
 
A revista encerrou atividades em 1979. Num de seus últimos números, fez uma matéria sobre a comemoração dos dez anos do Festival de Woodstock. Claro que comprei, ávido por uma edição recheada de fotos e informações bacanas sobre essa efeméride, mas...sinal dos tempos, tratou-se de uma reportagem superficial, diluída e decepcionante.
 
Era o fim da "Pop" e de certa forma a revista continuou, reencarnada em publicações juvenis e femininas que a editora Abril foi lançando posteriormente. Os motes moda, cuidados com o corpo, questões escolares e dúvidas sobre sexo davam a tônica e an passant, matérias sobre música e arte em geral. Claro, diminui-se o foco na música e o teor dos artistas retratados, prefiro não comentar, para não polemizar.
 
Digo apenas que Milton Nascimento, Yes, Traffic, Elis Regina, Jethro Tull e Mercedes Sosa, certamente nunca mais figuraram nas páginas dessas revistas que sucederam a "Pop"...
 
Tire suas conclusões...

22 comentários:

  1. Saudades da Pop.. tive trocentos numeros e ainda tenho alguns posters !! Ele foram utilizados a uns anos atras, numa festinha "anos 70" com amigos, num barzinho da Vila Maria-ZN de SP.Tinha Raul, Led, Daltrey, The Who, Hendrix ... e claro, muitas capas e vinis tb !!

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    1. Sidnei :

      Sensacional essa sua lembrança pessoal. Realmente os posters da POP eram muito bons. A qualidade gráfica dela era inegável.

      E a Vila Maria tremeu nessa sua festa anos setenta, tenho certeza !!

      Obrigado por ler e comentar !!

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    2. A festa deve ter sido o máximo, ótima idéia!

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    3. Com certeza, minha editora ! Tenho certeza que a trilha sonora arrebentou !

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  2. Só quero dizer que é sempre uma viagem lisérgica as matérias do Luiz Domingues e relembrar quais foram os jornalistas da POP e todas as óperas rock da época, mas a preferida continua sendo Rock, A História e a Glória!!!!Agora conta aí quem é esse guru da Poeira Zine????

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    1. Silvana, fico imensamente feliz por tê-la como leitora e tenho certeza de que a Fernanda Valente, dona deste Blog Limonada Hippie, certamente também aprecia suas visitas e comentários.

      Claro que tomo isso como um tremendo elogio. Uma viagem lisérgica tem tudo a ver com o teor desses textos falando sobre nossas reminiscências das décadas de sessenta e setenta.

      Não posso revelar quem era o Guru, por que não tenho essa certeza. Mas tenho uma desconfiança. Talvez você mate a charada : Seria um jornalista que escreveu na Revista Som Três, posteriormente na Bizz e que teve um programa radiofônico famoso na saudosa 97 FM de Santo André, em sua fase áurea de Rock 24 h por dia ???

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    2. Ele tinha uma banda também ou não???

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    3. Que eu saiba, não. Desconheço que ele tocasse instrumentos musicais ou cantasse.

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    4. O nome dele começa com V??? Ele ainda está no rádio??? Tinha pensado no Ayrton Mugnaini Jr!!! Dá outra pista please???

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    5. Não é o Ayrton...

      Ele retirou-se do metier do jornalismo e do radialismo, faz um bom tempo e mudou-se de São Paulo para uma cidade interiorana próxima...

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    6. O "LR",nosso popular Leopoldo Rey, é a minha desconfiança, mas jamais uma certeza. Boa dedução, Sil !

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  3. Muito Legal a revista Pop, tinha uns posters maneiros de rock, marilyn monroe e Divas da época, tem um da Rita Lee saindo de uma maçã que eu gostaria muito de rever,as matérias, jornal...era muita loucura,depois veio a ''revista super pop'' posters super viajantes, a parede do quarto era recheada deles ...a coluna pergunte ao Guru era muito legal...boas recordações,rock n' roll!

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    1. Bem lembrado, Kim !

      Lembro desse que citou da Rita Lee saindo de uma maçã, ou fruto proibido...

      Lembra-se de um do João Ricardo, de terno de cetim cor-de-rosa ? Era promocional do primeiro disco solo dele.

      Realmente os posters da POP eram bem caprichados. A parte gráfica era excelente por ser editada pela Abril Cultural, uma editora fortíssima e muito bem estruturada.

      E como relatei, a Revista Poeira Zine reativou recentemente a coluna do Guru. Ele continua com o clima setentista cheio de fina ironia que observava naquela época.

      Valeu por ler e comentar !!

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  4. Que maravilha relembrar a POP contigo Luiz!!
    Eu ficava ansiosa esperando em casa quando chegava o dia de ter nas bancas, minha mãe que trazia do centro de Porto Alegre, eu ganhava por lavar a louça e arrumar a casa, pois meus pais haviam se separado...quando a POP chegava em minhas mãos ninguém mais me via, eu me trancava no quarto e curtia folha por folha deslumbrada...era uma sensação incrível ficar sacando tudo, ótima revista!! Lembro bem da seção Pergunte ao Guru e fiquei curiosa para saber quem é ele...contaaaa!!!!

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    1. Krys :

      Adorei a sua estória pessoal com a POP. Não tenha dúvida de que estórias assim somam muito à matéria, trazendo o elemento que considero mais importante: a emoção.

      Posso imaginar que viagem fazia ao ler cada página da revista, na época. Pode acreditar : Cada prato e talher que lavou, enxaguou e secou, valeu muito a pena.

      Como já disse em respostas anteriores, não tenho certeza absoluta sobre a real identidade do GURU, apenas desconfio. Dei uma dica à Silvana, acima e como você mora em Santa Catarina atualmente e nasceu e criou-se no Rio Grande do Sul, talvez nem o conheça, pois é um jornalista paulista e que saiu de cena já faz um certo tempo. Isso se for ele...pode ser que eu esteja equivocado na minha suspeita.

      Obrigado por ler e comentar !!

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    2. É só pra deixar a gente curiosa Krys vamos ver se matamos essa charada Luiz!!!!

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    3. Não é, Sil ! Só não quero dar uma bola fora, pois não tenho certeza mesmo, só desconfio quem seja.

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  5. Ótima matéria, meu amigo Luiz Domingues. Quanto ao Guru, pergunte a ele, ele responde.. Abraço!

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    1. Grande Barata Cichetto :

      A mais simples das soluções e ninguém, incluso eu, havia pensado nisso. Certamente : E-Mails para o Guru na Poeira Zine !! Perguntam ao Guru !!

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  6. Grande Luiz
    Que materia legal!
    Eu lembro que em 1979, cheguei a ler essa revista e me lembro que era exatamente como vc descreveu!
    Agora, uma sugestao, se e que vc nao fez: Que tal uma materia sobre a SOMTRES?
    Abraço do amigo
    Marcelo " Dynamite " Teixeira

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    1. Que honra ter a sua manifestação por aqui, Marcelo.

      Infelizmente, a POP caiu na diluição total, acompanhando o sinal dos tempos. Em 1979, a vaca havia ido para o brejo, há tempos...

      Já estava na pauta. Em breve, falarei da SOMTRES, uma publicação bastante respeitável no jornalismo musical brasileiro.

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