quinta-feira, 28 de junho de 2012

Rolling Stone Brazuca Setentista

Até mesmo no meio antenado dos 70's, rockeiro brasileiro tinha cara de bandido. Nesse relato de Luiz Domingues, conheceremos o contexto no qual a famosa revista Rolling Stone estreiava no Brasil e assim influenciou o aparecimento de outras do genero. Entre na nossa máquina do tempo e boa viagem!

Quando foi criada na América em 1967, a revista Rolling Stone tinha o cenário mais sensacional possível para justificar a sua existência. Mas o editor Jann Wenner foi taxativo : "Não se tratava de uma publicação exclusiva sobre a música em si, mas principalmente focada nas coisas e atitudes que a envolvem".
Perfeito ! Conferir os meandros daquela riqueza explosiva dos anos sessenta era o foco ideal a ser perseguido, fugindo da pauta tradicional de revistas técnicas e preocupadas com teoria musical ou tecnologia de equipamentos e instrumentos.

E foi nessa toada que construiu a sua credibilidade e tornando-se referência, passou a ser imitada, certamente.
"Apesar de você", como dizia o Chico Buarque, a Rolling Stone ecoava na terra tupiniquim, a despeito da ditadura e influenciava muitos libertários, freaks e simpatizantes da vibe aquariana em geral.

Publicações antenadas pipocavam no Brasil, mas ainda nada tão centrado na contracultura, ainda por cima em época de enducecimento do regime militar.
Periódicos como O Sol e Bondinho existiram, mas não tinham o Rock como mote, embora ele tivesse um espaço editorial generoso em suas páginas.
De resto, havia a revista Realidade, muito mais focada na política e o jornalismo tradicional dos grandes jornais, com espaços mais tímidos, nesse sentido.

Com o fim do jornal O Sol, muitos de seus colaboradores foram engrossar o staff de O Pasquim, jornal que nasceu no final dos anos sessenta e de pronto tornou-se uma referência sarcástica contra o totalitarismo.
Mas O Pasquim não era exatamente contracultural embora houvessem pontos de convergência nesses valores. Tanto que Millôr Fernandes, o genial jornalista, era avêsso à contracultura, hippies, bandas de Rock e cabeludos em geral. Claro, isso não desabona-o pela sua obra, mas dá a mostra do quanto o Pasquim não era exatamente uma publicação sintonizada nessa vibe.

Com algum sacrifício, criou-se uma coluna denominada "Underground", conduzida pelo jornalista, dramaturgo e filósofo, Luis Carlos Maciel, que passou a falar de hippies, contracultura, Flower Power, protestos anti-Vietnam, bandas de Rock, Tim Leary, drogas alucinógenas e afins.
Em meados de 1971, Luiz Carlos Maciel acabou desanimando, quando sua coluna foi encerrada. Partindo para uma solução independente, funda o jornal alternativo "Flor do Mal". Artesanal e sem apoio logístico, durou apenas cinco números.

Em novembro do mesmo ano, é contactado por um inglês chamado Mick killingbeck, que em sociedade com alguns amigos, havia comprado os direitos da revista Rolling Stone americana para uma franquia brasileira e contactando Luiz Carlos Maciel, estava dado o pontapé inicial para um oásis se abrir no meio do deserto tupiniquim.

Ainda em 1971, estava nas bancas a edição número zero, com Gal Costa na capa e todo o desbunde setentista devidamente alimentado para o deleite dos freaks de Pindorama.
Dali em diante, foi seguindo seu destino contracultural com enorme galhardia. Era um luxo ter a edição brazuca da Rolling Stone.

Era inacreditável ter matérias sobre o que acontecia de melhor no mundo contracultural; quase simultaneamente e não como notícias requentadas e já ultrapassadas, como era de costume no Brasil.
E seguindo a linha editorial americana, as matérias sobre o Rock transpassavam a música em si e íam fundo na instrospecção, nas entrelinhas.

Matérias históricas sobre a MPB também, onde de certa forma Maciel resgatava o respeito que artistas como Gil e Caetano haviam perdido nas páginas do Pasquim, quando Millôr insistia em chamar os tropicalistas de "Baihunos", definitivamente numa postura conservadora e não compreendendo o alcance avant-garde de ambos.
E o mesmo em relação à literatura, cinema, teatro, filosofia, comportamento etc.

Em princípio, dividia-se o conteúdo nacional com matérias enviadas da matriz americana, mas um dia, os americanos começaram a cobrar royalties pelas matérias.
Coadunados com a mentalidade hippie de compartilhamento fraternal, os brazucas não gostaram da ideia e o impasse se criou.

Dessa forma, passaram a publicar as matérias americanas da mesma maneira, copiando-as da edição em inglês e no cabeçalho, escreveram a palavra "pirata", assumindo a transgressão como algo éticamente coerente aos valores fraternais da contracultura.
Um manifesto assinado pelo produtor da gravadora Phonogram, André Midani, chegou a ser publicado, prestando a sua solidariedade à Rolling Stone brasileira. Segundo o comunicado, a indústria fonográfica apoiava e precisava muito da existência da revista, como veículo único de divulgação do Rock e MPB de qualidade no país.

Mas em 1973, após 36 edições, infelizmente fechou suas portas, deixando uma lacuna jornalística.
Para a nossa sorte, algum tempo depois, surgiria "Rock, a História e a Glória", a meu ver , a melhor revista especializada da década de setenta, formada por um staff espetacular, Luiz Carlos Maciel, incluso. E também a Revista POP, da editora Abril Cultural, menos profunda nos textos, mas com melhor acabamento gráfico.

Luiz Carlos Maciel, Ana Maria Baiana, Joel Macedo, Okky de Souza e Lapi, entre outros, formavam esse staff antenado e de escrita fina. Conteúdo era o que não faltava à histórica publicação.
Muitos anos depois, a Rolling Stone entraria novamente no mercado editorial brasileiro. Em 2006, surgia nas bancas a nova edição da Rolling Stone brasileira, com estrutura empresarial e gráfica forte, contudo sem o conteúdo e o glamour dos anos setenta, não tendo nem esboço da essência contracultural de outrora.
Mas se nos serve como consôlo, a edição americana também deixou de lado esse espectro há décadas e convenhamos, sinal dos tempos diluídos que seguiram-se.
 

14 comentários:

  1. Ja tive tudo isso, rsrs
    Alias, ainda tenho muitos..
    Tipo, todos os numeros da Roling Stone brazuca !! do 01 ao 36 ..Yeahhh

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    1. Sensacional, Sidnei !

      Guarde com muito carinho esse tesouro que hoje tem valor inestimável.

      Obrigado por ler e comentar !!

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  2. Eu sou dessa época aí, mas é a primeira vez que me inteiro desse histórico. Sempre fui ligada em rock (e sou até hoje) e no movimento hippie, vivi em meio à ditadura militar, mas ficava também muito tempo fora do Brasil. Só estranhei não ter sido mencionada aqui a undergroundíssima "Sociedade Alternativa" criada por Raul Seixas e Paulo Coelho, mas valeu muito pra eu ficar sabendo do histórico da Revista Rolling Stone. Valeu 1000 na verdade!

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    1. Esotérica : Antes de mais nada, quero agradecer em meu nome e da Fernanda, dona do Blog, pela sua atenção e gentileza em postar um comentário tão rico !

      De fato, não citei o "Sociedade Alternativa", mas fica de ótima sugestão para futura pauta.

      Amplexos de Paz e Amor !

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  3. Esplêndido, meu amigo Luiz Domingues. apenas um acréscimo, com relação à revista Rock, a História e a Glória: a presença também importantíssima de Ezequiel Neves, muito antes de "descobrir" Cazuza, com a sua impagável coluna "Zeca Jagger News". Nesta coluna, uma espécie de "coluna social" roqueira. Ezequiel, falava muito de suas bandas prediletas: Stones e Made, tanto que acabou participando de um disco deles. E outra coisa importante nesse assunto, citar que ela editar por Armando Amorim (o Armando me cobrou isso por e-mail, por causa de um texto que escrevi sobre essa revista. Ademais, muito bom. Nós, que vivemos essa época temos obrigação de contar esses fatos às pessoas, fato que determinou a edição do meu livro, onde também conto essas e outras histórias. Abraço!!!!!!!!!!!!!!!!

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    1. Grande Barata Cicheto !

      Não me esqueci do Ezequiel Neves, não, amigo. Só deixei guardado para a inevitável matéria específica sobre a "Rock, a História e a Glória", que farei, sem dúvida. Claro que me lembro de sua coluna onde dava um ar de Jet Set para o Rock tupiniquim, como se escrevesse uma coluna social e ninguém me tira da cabeça que era uma enorme tiração de sarro com o Ibrahim Sued, o mais cafona (e engraçado), colunista social de todos os tempos !!

      E ótimo adendo !! O nome de Armando Amorim não apareceu em nenhuma fonte onde pesquisei para elaborar a matéria e dei o azar de não achar o único exemplar da RS que eu tenho na minha coleção.

      Te dou total razão : Temos a obrigação de contarmos as nossas memórias, pois o paradigma que a imprensa marronzinha nos impôs é uma falácia !! O Rock brasileiro não começou nos anos 1980 em Brasília, como a "história" forjada por eles, determinou.

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  4. Muito legal as informações complementares que vocês postam nos comentários! Adorei! =)

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    1. Que legal !!

      Estou muito contente com a participação das pessoas também, minha cara editora !

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  5. sensacional!!saber do historico da revista Rolling Stones,parabéns amigo! fico imaginando a repressão que era na época da ditadura pro lado dos Hippies! lembrei de qdo criança minha mãe dizendo não fica na rua menina se não o hippie te pega! eles eram visto como marginais e tudo relacionado a eles para os caretas da sociedade não prestava.

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    1. Grande Yvonne !

      Que legal a sua participação aqui no Limonada Hippie.

      Seu relato reforça a ideia de que eram tempos difíceis para nós que só queríamos curtir um som e sermos fraternais...

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  6. Muito legal a sua matéria sobre a Rolling Stone no Brasil e o Pasquim também pecou execrando o Simonal como dedo duro na Ditadura. Agora tô aguardando ansiosamente "A História e a Glória do Rock" a minha favorita!!!!

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    1. Silvana, que legal !

      Fico muito contente que tenha curtido a matéria sobre a Rolling Stone setentista.

      Quanto ao Pasquim, acredito que tinha muitos méritos, mas não era nem de longe contracultural. Pelo contrário, os caras eram intelectualizados, mas com mentalidade de esquerda, ou seja, nesse tipo de visão, tanto a direira fascistóide, quanto a esquerda comunistóide, são iguais em oposição aos adeptos da contracultura. Os jornalistas do Pasquim, exceto as raras excessões, enxergavam nos hippies, meros vagabundos alienados, demonstrando que ninguém é perfeito, nem mesmo o Millôr Fernandes.

      E pode deixar, vou preparar "Rock, a História e a Glória", de longe a minha publicação predileta nos anos setenta. E certamente a primazia será do Blog Limonada Hippie.

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