terça-feira, 22 de maio de 2012

O Bondinho no Bonde da História

Só na década de 70 para acontecer uma coisa tão incrível e fora comum como por exemplo uma marca promover uma revista com um nível cultural tão alto como a "Bondinho". Nessa época, além da efervescência cultural também havia a repressão, que  infelizmente cancelou a revista. Pelo menos ficaram os registros e a história para contar...

Por Luiz Domingues:

Muitas vezes, uma grande ideia surge de forma despojada, sem grandes elocubrações.
 
Quem poderia afirmar que uma publicação patrocinada por uma rede de supermercados, poderia se transformar numa revista de grande conteúdo cultural e muitos anos depois, ser alçada à condição de cult ?
 
Pois foi assim que no ano de 1972, surgiu a revista "Bondinho", com matérias antenadas no melhor da música, teatro, cinema, literatura etc.
 
Patrocinada pela rede de supermercados Pão de Açúcar, tinha como staff jornalístico, profissionais como Hamilton de Almeida, Roberto Freire, Sérgio de Souza, Antonio Ventura e Victor Cervi, entre outros. 
 
A curta duração da revista (treze edições, entre janeiro e maio de 1972), se deveu evidentemente ao terreno arenoso em que o patrocinador se viu, pois em 1972 o clima de repressão estava pesado demais e os problemas enfrentados com a censura inviabilizaram seu prosseguimento.
 
Nesta curta duração, gente do calibre de Chico Buarque, Maria Bethânia, José Celso Martinez, Walmor Chagas, Rogério Duprat, Gal Costa, Milton Nascimento, Mauro Rasi, Hermeto Paschoal e Luiz Gonzaga foram entrevistados.
 
Chico Buarque foi bombástico, dizendo que estava cansado de enfrentar a censura e pensava em não gravar mais. Teceu várias considerações sobre Chico e Caetano e sugeriu que intrigas plantadas por agentes da ditadura, tentaram jogar um artista contra o outro, para desestabilizá-los.
 
Uma das mais contundentes entrevistas, se deu com o ator Walmor Chagas. Sem medo da ditadura, falou sobre maconha, preconceito racial (naquela época, o povo brasileiro se arvorava hipócritamente de não existir tal sentimento por aqui e que isso era coisa de norte-americanos...), censura (pegou pesado nesse ítem, deixando uma pergunta : "Por que não podemos fazer uma peça teatral ou um filme sobre um terrorista preso pelo regime ?") e no ápice da afronta aos bons costumes, citou a tragédia grega de Édipo Rei. Nem preciso dizer, essa edição foi recolhida pela ditadura...
 
No seu rápido auge, o "Bondinho" chegou a ter 500 mil exemplares, algo inacreditável para a época e muito além da revistinha de gôndola de supermercado, que hipotéticamente serviria apenas para distrair donas de casa na fila do caixa.
 
Ana Maria Baiana, que se notabilizaria como grande crítica de Rock e cinema, afirmou tempos depois, que graças ao "Bondinho", aprendeu a amar o Traffic, a banda chic de Steve Winwood, Jim Capaldi & Cia.
 
Das cinzas do "Bondinho", nasceu outro projeto ambicioso : A edição brasileira da revista Rolling Stone, em sua primeira encarnação brasileira, ainda no ano de 1972.
 
Um belo livro escrito por Sergio Cohn e Miguel Jost, conta toda essa trajetória e traz compiladas as entrevistas do "Bondinho", num verdadeiro resgate para a memória do jornalismo cultural brasileiro.

2 comentários:

  1. Luiz, Acho que ainda tenho um exemplar da revista "Bondinho"...(vou procurar em meus arquivos) Grata pela lembrança e pela dica do livro que resgata esta memória cultural. Abrs. Elizete.

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    1. Muito legal, Elizete ! Se você achar o exemplar, pode ter a certeza de que ele tem um valor significativo no mercado de raridades.

      Obrigado por ler e comentar !

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