quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Relato de um show dos Novos Baianos...

   Para relembrar a época mágica que foi a década de 70, a seguir, um relato de um amigo que viveu um dia memorável no show dos novos baianos! Obrigada pelo relato Luiz! 

    Foi em alguma noite de maio de 1977 cujo dia correto, não me recordo, que eu, o Wilton e Laert fomos ao Tuca (Teatro da Universidade Católica - PUC ), para assistirmos um show dos Novos Baianos. O show foi eletrizante do primeiro ao último segundo, como era a praxe daquela banda sensacional.

    Na primeira parte, eles tocavam os temas mais acústicos com rítmos brasileiros etc e na segunda parte, ficava só a sessão elétrica no palco, a que chamavam de "A Cor do Som". Era como se fosse uma banda dentro da outra, mas logo a seguir, o ex- baixista dos Novos Baianos, Dadi, acabou usando o nome para fundar outra banda e a estória todo mundo conhece. Nessa hora, o bicho pegava, literalmente, pois Pepeu, Jorginho e Didi, três irmãos, simplesmente destruíam seus instrumentos para humilhar rockers radicais que desdenhavam dos Novos Baianos por conta de não serem 100 % Rock'n'Roll e terem esse lado brasileiro bem acentuado. Lembro que o Wilton conseguiu a palheta do Pepeu na última música e o quanto ficou eufórico.

  Aí o Laert tinha que ir embora e eu e Wilton resolvemos dar uma enganada nos seguranças do teatro e tentar ficar para assistir a sessão maldita, de graça. Naquela época, eram comuns as sessões duplas de shows de Rock, com o primeiro show às 21:00 h e a segunda sessão à meia-noite, daí a alcunha: "Sessão Maldita".
Conseguimos burlar a segurança subindo ao palco e fingindo estarmos pedindo autógrafos dos componentes dos Novos Baianos e quando deu uma brecha, entramos coxia adentro e nos escondemos nos camarins do Tuca.

  Foi uma experiência lúdica, pois o Paulinho Boca de Cantor e a Baby Consuelo ao invés de ficarem bravos com a nossa invasão, se solidarizaram e nos acobertaram, deixando-nos no camarim, sob a instrução de voltarmos à platéia, assim que o show da meia-noite estivesse para começar.
Lembro da Baby brincando conosco, daquele jeito despachado e dizendo alguma coisa do tipo: "Olha os dois malucos aí, estão assustados...Relaxa aí, bicho, pode ficar aí numa boa e assistir a sessão maldita..."

  Estávamos de fato assustados por estarmos burlando a segurança do teatro, mas muito mais é emocionados por estarmos nos camarins dos Novos Baianos, vendo-os pessoalmente num momento pós-show e se preparando para o segundo show, a movimentação dos roadies e técnicos fazendo reparos e checando o equipamento etc. Aquilo era por demais lúdico para dois moleques sonhadores de 17 anos.

  Então , pouco antes de abrirem as portas para o público da sessão maldita, um roadie nos conduziu à platéia e assistimos novamente aquele petardo chamado "Novos Baianos"...

  Na saída, por volta das 2:00 horas da manhã, não tínhamos outra alternativa a não ser descer a Rua Monte Alegre até a Av. General Olímpio da Silveira e esperar um ônibus para a zona leste, onde eu morava no Tatuapé e ele em Engenheiro Goulart. Mas não éramos só nós...haviam nesse comboio, pelo menos uns 100 freaks que tinham o mesmo objetivo. Chegando ao ponto, enquanto esperávamos a linha Lapa-Penha, eis que surge um pequeno comboio de viaturas da polícia militar. Com a truculência que lhes era peculiar naqueles tempos de ditadura, chegaram enquadrando todo mundo. Fomos revistados, humilhados e os que portavam drogas, apanharam muito. O sargentão parecia alucinado e queria colocar todo mundo dentro de um ônibus e prender. E naqueles tempos de AI-5, ele poderia mesmo fazer isso a seu bel-prazer. Mas por uma sorte inesperada, resolveu enquadrar só os que portavam drogas (Perto de mim, tinha um hippie que estava com pelo menos 30 comprimidos de Mandrix, droga popular na época.)

  Então , após um sermão moralista de ultra-direita, nos exortando a tomar cuidado, cortar o cabelo e pensarmos em "Deus, família e Brasil", nos deixou em paz, finalmente. Foi uma experiência de uns 30 minutos mas que pareciam horas...

Quem quiser conhecer mais sobre Luiz Domingues e suas histórias e relatos, visite o blog dele! 
http://luiz-domingues.blogspot.com/

6 comentários:

  1. Muito legal ter reproduzido esse relato aqui, Fernanda. Lembrança muito boa dos anos setenta, apesar do susto na calada da noite. Mas cheguei intacto em casa e 35 anos depois estou aqui, são e salvo...

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  2. Parabéns duas vezes :pelo blog e pelo relato.Realmente nestes tempos de abertura,não nos damos conta da qualidade perdida do som ,nem da dificuldade atravessada pelas gerações anteriores.Belo relato....

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    1. Respondendo ao seu comentário no Limonada Hippie, tenho q concordar que apesar da liberdade que tem a nova geração não se dá conta do quanto as gerações anteriores lutaram para que eles tivessem o direito que se expressarem como bem entenderem e serem criativos também... É uma pena que hoje eles não saibam o que fazer com a liberdade que tem!
      Obrigada pelo comentário!

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    2. Tem razão o(a) amigo(a) "Roll to Rock" e também a editora Fernanda, deste blog. Realmente, a atual geração não tem noção do quanto a ditadura militar foi dolorosa e se hoje temos liberdade, a garotada deveria valorizar cada aspecto dessa condição, com a determinação de nunca mais permitir que o Brasil passe por uma situação igual àquela de 1964/1985. Grato aos dois por ler, comentar e elogiar !

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  3. Os anos 70 no Brasil foi um marco!! Quem viveu essa época pôde presenciar o que acontecia de melhor na cena musical e artes em geral.
    Tenho um pouco de inveja de vc Luiz Domingues...rs.
    Parabéns pelo blog e pelo texto.
    Vou seguir!!

    Abç!

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    1. Katia, eu te entendo quando diz sentir inveja e sei que é meramente figurativo, denotando um sentimento pela época em si. Bem, toda época tem aspectos bons e ruins. As décadas de 60 e 70 tinham tecnologia tosca, carência de informação e uma ditadura insuportável no Brasil. Consegue imaginar a vida sem internet, Computador dentro de casa, Lan House, Telefone celular e TV a Cabo ? Nem sonhávamos com essas coisas...

      Em compensação, tínhamos uma Era de artistas incríveis, com uma cena esfuziante, deslumbrante, enlouquecedora e que era tão intensa que jamais pensaríamos que se esvairia pelos dedos, como água...

      E agradeço por seguir o Blog Limonada Hippie, no qual sou colaborador e entusiasta !

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